|
|
Domingo, Abril 06, 2008
ATENÇÃO ATENÇÃO ATENÇÃO ATENÇÃO ATENÇÃO ATENÇÃO ATENÇÃO ATENÇÃO ATENÇÃO ATENÇÃO ATENÇÃO ATENÇÃO ATENÇÃO ATENÇÃO ATENÇÃO
AS NOVAS HISTÓRIAS DO COMENDADOR BALTAZAR AGORA ESTÃO SENDO PUBLICADAS EM NOVO ENDEREÇO:
WWW.COMENDADORBALTAZAR.BLOGGER.COM.BR
WWW.COMENDADORBALTAZAR.BLOGGER.COM.BR.WWW.COMENDADORBALTAZAR.BLOGGER.COM.BR.WWW.COMENDADORBALTAZAR.BLOGGER.COM.BR
Mario Bourges 22:53 [+]
Sábado, Março 15, 2008
O tempo passa para todos, e descobrimos que assim que ele passa por nós deixa um rastro de desgaste em nossas vidas. Digo isto com muita propriedade, pois, é uma coisa que acontece de fato, e uma prova do que acabei de dizer relatarei agora. Veja você que dia desses fui convidado para ir a uma churrascaria e depois a uma pizzaria na companhia de uns velhos conhecidos. Até aí sem problemas, você deve estar pensando assim. No entanto, o convite era para que fossemos a estes lugares no mesmo dia.
Em princípio imaginei que isto não fosse possível de acontecer. Porém, ao longo desta incursão alimentícia pude comprovar minha teoria, ou seja, não era mesmo possível de acontecer... Ã... Porém, já estava tarde demais para tomar qualquer decisão contrária. E quando dei por mim já estava a mostrar meu lado mais animalesco em cima dos pratos e copos, que, aliás, estes não ficavam vazios por mais de dez segundos. Tenho de admitir que os garçons dos lugares eram bastante eficazes em suas atividades profissionais.
Falando nisso, lá pelas tantas um dos garçons resolveu colaborar com minha turma... Mas tenho a impressão que ele, este magnífico profissional dos copos e pratos e talheres, deu mais atenção para mim, pois minha condição não era das melhores. Poderia dizer que dentre a tamanha lambança desempenhada por todos que lá estavam, meu desempenho era o pior entre os piores. Veja que coisa mais absurda; no primeiro momento fomos à churrascaria e comemos e bebemos tudo bonitinho, sem muitos exageros. Poderia perfeitamente encerrar a noite naquela etapa, mas não. Tinha um sujeito que insistia sem parar para que fôssemos à pizzaria, aliás, sempre tem um sujeito insistindo para fazermos algo que não presta. Mas tudo bem, a cagada já estava a caminho de ser feita mesmo. Então deixei que tudo levasse à breca de vez.
Bom, deixe-me continuar com a narrativa; o foco, sem dúvida, estava na pizzaria. Lá que as coisas aconteceram de fato. Se bem que gostaria imensamente de não entrar em todos os detalhes do acontecido, mesmo por que não lembro de tudo mesmo. Só sei dizer que depois de fazermos aquela bagunça nos corredores, nas mesas e em todos os lugares do estabelecimento era momento de nos retirarmos de lá. Sorte nossa que o proprietário, um sujeito ligeiramente transtornado por alguma moléstia que obtivera ainda na infância era grande, bigodudo, com o olhar severo e profundo e, ainda, mal-encarado... Ah, sim, e paciente. Talvez seja por isso que ninguém tenha morrido. E caso ele não fosse paciente teríamos parado em alguma vala comum ou alguma cova rasa. Falando em cova rasa lembrei de um filme com este título. Sei que não tem nada haver com o que estou contando mas tudo bem, gostei do que assisti... Ã... Onde é que eu estava mesmo? Ah, sim; saímos de lá falidos, pois gastamos o que tínhamos que o que não tínhamos. Alguém da turma penhorou o relógio na hora de fechar a conta. Tudo bem, o relógio não era o meu.
Sei dizer que a volta de lá foi, digamos, diferente. Dirigir era uma coisa rara, pois ninguém conseguia sequer ficar sobre os pés sem cambalear e rodopiar e zonzear. Assim sendo cada um de nós saiu da pizzaria direto, cada qual para sua casa, dentro de uma viatura do corpo de bombeiros. Duvida disto? Pergunte então para o comandante desta corporação. Se ficou zangado com nossas atitudes? Logicamente que não, pois ele foi o que mais comeu e bebeu e vomitou naquela pizzaria. Sem dúvida que a presença dele intimidou o proprietário do estabelecimento, caso contrário... Já disse o que poderia ter acontecido. Mas tudo bem. Ah, o dia seguinte foi de lascar. Eu estava tão cheio, mas tão cheio que meu corpo parecia uma pizza com a borda recheada. Azia? Se tive azia? Mas claro que sim. Aliás, nunca tomei tanto antiácido em toda a minha vida. Alguma pergunta mais? Não? Então chega de falar besteiras, vou deitar um pouquinho... Ainda estou enjoado.
Comer, comer e comer aos montes não é para qualquer um; isto é serviço para profissionais.
Mario Bourges 18:43 [+]
Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008
Em uma tarde qualquer de calor escaldante único estava eu sentando num banco de praça enquanto observava as coisas acontecerem... Devagar, pois o calor estava insuportavelmente difícil de tolerar. Então eu, à sombra de uma bela e frondosa árvore, degustava uma saborosa cerveja. As pessoas passavam pela calçada e me olhavam com seus olhos de pedintes e morrendo de vontade de sentarem-se ao meu lado para dar uma bicada na minha cerveja. Eu, logicamente, nem dava bola para essa gente, pois simplesmente não gosto de sofrimentos.
Lá pelas tantas um sujeito com a cara engraçada e usando um chapéu não menos engraçado que seu rosto sentou-se no banco ao lado do meu. Bom, até aí sem problemas, afinal de contas, bancos de praças são feitos justamente para este fim, ou seja, sentar. Contudo, o talzinho não parava de olhar para mim. Provavelmente também queria um pouco da minha cerveja, pensei. Mas resolvi dar continuidade aos meus afazeres, que era de ficar tranqüilo no banco, observar os transeuntes que passavam com seus olhos estalados para mim, e claro, apreciar categoricamente minha cerveja.
O tempo se passou e meu vizinho de banco, cansado de me olhar, resolveu me importunar com sua tola curiosidade. Então falou e falou e falou, mas não respondi absolutamente nada, e isto se deu pelo fato de eu não ter entendido absolutamente nada. Quase tenho a certeza de que o infeliz falava em Iídiche para comigo... Ou talvez em Sânscrito... Sei lá. Bom, de uma coisa eu sei; aquilo tudo me cansou profundamente. No entanto fiquei por ali, mesmo sem entender, só para mostrar minha boa educação, e no primeiro momento que vi oportuno, momento este que foi um simples piscar de olhos, resolvi cair fora daquela chatice toda. A ladainha do sujeito havia me cansado por demais.
Corri o mais que pude para fugir da situação em que me encontrava, e rumei para qualquer lado, pois para mim tanto fazia a direção. Queria apenas sumir de perto do chato. E pensando desta maneira entrei na primeira porta aberta que vi, porta esta que era de um supermercado. Lá me deparei com uma infinidade de coisas interessantes como: televisores, refrigeradores e por aí vai, além, é claro, dos tradicionais produtos de mercado como: alimentos, produtos de limpeza e também, por aí vai. Mas vou contar sobre as coisas interessantes deste novo tipo de loja de departamentos que entrei.
Olhava eu para os grandes televisores a fim de me distrair um pouco com a programação exclusiva que era transmitida via antena parabólica, quando de repente as coisas que iam acontecendo ao meu redor se tornavam cada vez mais estranha aos meus olhos e ouvidos.
-- Muito boa tarde senhor! Gostaria de se assentar em algum sofá para melhor assistir ao televisor? Ah, caso queria algum acepipe para degustar, ou alguma bebida para acompanhar na sua diversão, assim que se decidir por posicionar-se confortavelmente diante do aparelho de tevê, esteja à vontade. No entanto peço, por obséquio, que nos ajude a melhor servi-lo respondendo algumas perguntas de um breve questionário. Disse-me assim um jovem atendente simpático e bem trajado do supermercado do qual eu acabara de entrar.
Coisa difícil de acontecer; tanto eu preencher um questionário elaborado por algum supermercado quanto ver funcionários desta estirpe, ou seja, polido e falando muito bem... Só em sonho isto é possível, pensei. No entanto...
-- O senhor quer que eu faço uma ficha para o senhor possa estar recendo em sua casa um cartão fidelidade de nosso mercado? Veje bem, a nível de vantagem, o senhor só ganha. Quer que eu faço, eu faço, não tem poblema nenhum. Disse-me assim uma baixinha e feiazinha enquanto ficava nas pontas dos pés, e ainda, a me olhar no fundo de meus olhos como que se quisesse ver quem era o morador por detrás daquele mar de pele esparramada e sobrando por todo o rosto. Pronto! O encanto acabou, continuei pensando sem me importar por tais palavras atiradas em mim desta maneira. Que foi que fiz? Oras, apenas o esperado; caí fora de lá quase que imediatamente. Só não saí imediatamente por que tinha de pegar meus sapatos que estavam embaixo de um sofá. Por que eles estavam embaixo de um sofá? Putz; você faz perguntas demasiadamente. Bom, estavam embaixo do sofá pelo fato de que eu tirei uns minutos de sono durante a falação de um apresentador de telejornal que passava no instante que havia entrado no tal do supermercado. Entrada esta decorrente do outro chato que estava na praça momentos antes.
Então, como o sol já havia se enfiado na terra não vi empecilho algum voltar às ruas, pois ser sapecado vivo enquanto caminha por aí é uma coisa pra lá de ruim. Mas acabei por desistir de rodar sem direção, fui é para casa. E assim que cheguei em casa corri para o sofá, estava cansado, queria relaxar e tirar meus sapatos para arejar os pés. Tanto eu quanto eles necessitávamos disto. A Olga não gostou muito do que fiz, pois o cheiro estava forte. Mas teve quem gostou; o cachorro, por exemplo. Lambeu meus dois pés até se cansar. Não sei o que dizer ao certo sobre isto, talvez seja estupidez, por lamber os pés de outro, mas também possa ser um ato de esperteza, pois isto deva ser gostoso de fazer... Um dia vou tentar lamber meus pés, se for gostoso continuarei a fazer, e se não for eu paro... É... É isso.
Aqui estava a baixinha e feiazinha a me perguntar parvoíces. Mas tudo bem, não costumo dar atenção aos parvos.
Mario Bourges 02:22 [+]
Terça-feira, Janeiro 29, 2008
Sempre buscamos novidades para nossas vidas, e algumas vezes as novidades nos tomam de surpresa, de chofre. Temos ciência de que quando, pelo menos na maioria das vezes, tais novidades nos surpreendem, coisas boas é que não são. Contundo, esta em particular, assombrou-me de tal maneira que quase fiquei sem ar... Ã, talvez tenha acontecido um pouco menos, pois quem me ouve falando desta maneira deve pensar que o acontecido fora do além, ou e o que é pior, que estou tornando-me num velho maricas.
Deixe-me partir para a história propriamente dita, pois se continuar assim, cheio de floreios, certamente chegarei a parte alguma de nada. E como bem me conheço, ficarei dando voltas e mais voltas até que toda a linha do meu pensamento se perca por completo. E daí, já era. Então, como ia dizendo... Ã... O que era mesmo? Ah, sim; o cachorro, aquele vira-lata sempre que pode faz cocô onde não deve. Aliás, ele só faz cocô onde não deve... Mas... Ah, lembrei agora, estava falando de surpresas e coisas e tal.
Pois bem, dia desses, após muito tempo sem ver coisas do tipo, vi a Olga, toda se esgueirando pelas paredes em movimentos maliciosos, piscadelas atrevidas, sorrisos indecentes e movimentos com as mãos pra lá de provocadores. Sem dúvida que ela queria algo a mais de mim. Então, ao longo da semana pude perceber algumas coisinhas diferentes acontecendo pela casa.
Segunda-feira:
As crianças (netos e sobrinhas - a irmã da sobrinha que já mora conosco) foram convidadas inesperadamente a passar uns dias na casa de praia da minha irmã. Este fato poderia ser algo normal, mas como sei que tanto minha irmã quanto meu cunhado são unhas-de-fome, deduzi que tinha coisas estranhas acontecendo. Outra coisa que me deixou com a pulga atrás da orelha foi: mesmo com o tempo chuvoso o convite fora feito... Realmente a coisa estava estranha. De qualquer maneira tudo bem; queria mesmo ficar uns dias circulando pela casa mais à vontade.
Terça-feira:
Assim que acordei, talvez isto tivesse acontecido perto das 10h, percebi um pote virado e vazio ao lado do meu travesseiro. Estranho, pensei, por que teria um pote vazio do meu lado, continuei pensando. Contudo, assim que me pus sentado no colchão pude ver o real acontecido; muitos e muitos amendoins esparramados sobre e sob o lençol e o cobertor, e ainda, por dentro dos meus chinelos e por todo chão do quarto. Logicamente que no quarto eu não me encontrava sozinho, o cachorro tratava de comer os grãos espalhados pelo assoalho. Bom para ele, pensei. Depois me levantei, fiz o que tinha de fazer no sanitário, tomei um gostoso e demorado café, voltei ao sanitário, almocei, sanitário novamente, depois mais um pouco de sanitário, desta vez para espremer uns cravos do nariz. E para finalizar o expediente deste dia, fiz um lanche e depois mais um outro lanche, consecutivamente fui outras tantas vezes ao sanitário.
Quarta-feira:
Meu dia havia começado mais cedo, precisamente às 9h, e por esta extravagância fiquei entorpecido para o resto da quarta-feira. Em compensação comecei a ver coisas agradáveis e interessantes pela casa. Além de coisinhas gostosas para comer. Realmente a Olga sabe como me agradar... Falando em Olga, a partir deste dia começou a usar roupas mais provocantes... Cetins, sedas, saias curtas e coisas do gênero. E como já disse; a Olga sabe mesmo como me agradar. Porém, como havia acordado muito além do meu horário normal, estava exausto. Ainda mais depois de ter saído um pouco num boteco aqui perto do prédio onde moro.
Quinta-feira:
Quando acordei percebi que estava friozinho além de encontrar mais um pote de amendoim ao lado do meu travesseiro. Desta vez ainda estava cheio. Assim sendo, tratei de comer uns dois ou três punhados disto. Gosto de amendoins. Então comi mais uns dois ou três punhados destas sementes. Nisto acabei por derrubar um tanto delas pelo chão, e o cachorro logicamente não deixou para depois, comeu-os todos os que estavam espalhados dentro e fora dos meus chinelos. Bom, depois de comer o pote todo, em companhia do velho companheiro vira-latas, fui ao sanitário dar um trato no vaso, pois minha barriga estava até borbulhando. E então, depois, bem depois de ter estourado alguns azulejos do sanitário com minha concentração, vi a Olga vestida de couro e cetim desfilando pela casa... Realmente ela sabe mesmo como me deixar louco. Depois fui ao bar perto de casa, e lá me servi de algumas doses de catuaba para fortalecer o espírito.
Roupas elegantes, posições interessantes, sorrisos... hum!
Sexta-feira:
A semana foi passando e as coisas se tornavam mais interessantes e provocantes, pensei. Quando acordei, isso devia ser umas 9h30, vi a Olga debruçada sobre uma cômoda de roupas, revirando não sei o quê, enquanto usava uma camisa de cetim e uma saia que há tempos não usava. Agora o que mais me chamou a atenção foi, além de tudo isso, comidinhas estimulantes e roupas sensuais, foi ouvir Sally Oldfield cantando Mirrors ao fundo. Parecia sonho. Mas continuando; os olhares da Olga estavam me deixando doidão, no entanto me fiz de forte. Fiz o que tinha de fazer no sanitário, depois tomei meu café e fui para a rua. Dirigi-me ao boteco para tomar umas... Catuabas.
Na verdade não era um cômodo, mas... isto tanto faz também.
Sábado:
Dia fantástico, posso dizer. Às 10h fui acordado pela Olga trajando cetins e couros enquanto se rebolava toda para mim. Ovos de codorna, amendoins, Caracus e catuabas foram servidos numa bandeja de prata para mim ainda na cama. Confesso que comi e bebi pouco daquilo tudo naquele instante... Precisei ir ao sanitário; já estava me urinando. Tudo de manhã é mais complicado. Mas logo voltei também. Todas aquelas coisas ingeridas durante a semana haviam me aflorado um desejo incontrolável de agarrar minha senhora. Ô coisa boa.
Aqui as coisas começaram a incendiar.
Claro que não irei narrar todos os detalhes, mas posso garantir que nossas atividades sobre a cama, cadeira, sofá, outra cama, outra cadeira e mais outra cadeira, de volta para sofá, sanitário, mesa da cozinha, novamente ao sofá, outro sanitário, em cima da máquina de lavar roupa, depois rolando freneticamente até o sofá, de novo, e aí então, terminar na nossa cama. Ufa! Foi um trabalho dos bons que executamos. Do traje que ela vestia sobrou um botão da camisa enrolado em seus cabelos... Ah! Ainda sobrou um dos punhos da mesma camisa, por que o resto saiu voando aos pedaços para todos os lados. Até a saia de couro conseguimos rasgar em três partes. Que loucura! Quanto a mim; eu já estava praticamente pelado quando saí da cama na primeira vez, pois minha cueca estava com o elástico frouxo e a camiseta furada se desmanchou toda assim que me esforcei para sentar. O resto do dia foi para nós um tanto inútil, quer dizer, ainda brincamos mais uma vez. Logicamente que esta outra atividade foi menos selvagem, só quebramos o tampo da mesa da cozinha e dois vasos que estavam sem utilidade na sala.
Entre uma brincadeira e outra a Olga resolveu dar uma espairecida, desanuviar a mente e anuviar o ambiente... tudo bem.
Domingo:
Ficamos inertes o dia inteiro. Comemos e bebemos qualquer coisa. Depois ligamos o televisor, que ficou ligado passando uma porcaria qualquer enquanto um esfregava as costas do outro em um banho demorado cheio de piadinhas picantes. Enxugamos-nos carinhosamente, um com a toalha do outro; para mostrar que havia cumplicidade entre nós, e em seguida vestimos roupas adequadas de não fazer para não fazer nada, claro, acomodamos-nos no sofá um pouco bagunçado para comer um chocolatinho tranquilamente e ficamos esperando as crianças voltarem da praia, mas não sem antes fazermos corrida de mão boba pelo corpo um do outro. Definitivamente falando a semana passada realmente foi muito boa; a melhor deste ano até agora. Mas é isto, chega de saber de nossas vidas íntimas... Pelo menos por enquanto. Inclusive com direito a máscaras.
Logicamente que nem só de alegrias vive o homem. Depois de uma seção de total sensualidade e uma festa particular para levantar o ego o famigerado balde de água fria me foi atirado severamente; máscaras de Hipoglós, e toucas e espumas e uma porção de coisas que não sei dizer o que eram tomaram o lugar daquela Olga vestida com sedas, cetins, couros. Tudo bem. A roupa que mencionei que era para não fazer nada era esta daí. Mas não posso falar muito, pois nem com roupa feia costumo ficar quando estou em casa; fico pelado mesmo.
Mario Bourges 01:48 [+]
Sexta-feira, Janeiro 11, 2008
O BALTAZAR EM DOIS TEMPOS: FINAL DE 2007 E INÍCIO DE 2008
Ao longo do ano vemos as pessoas reclamando sem parar de tudo; que isto está errado, que aquilo não é ou não está bom, que o negócio está estragado, que a vizinha feia é feia mesmo, e por aí segue. Contudo, quando chega a época das festividades de fim de ano tudo se modifica. Pessoas começam a se elogiar, mesmo se odiando verdadeiramente, passam a sorrir, coisa estranha de acontecer por terras curitibanas, principalmente nas épocas de inverno, ou qualquer frente fria que chega de maneira inesperada. E como isto acontece de quando em quando, as pessoas daqui não sorriem. Tirando é claro essas épocas em que o ano se finda.
E aproveitando o assunto que comecei tratar darei continuidade com alguns acontecimentos, porém, mudarei o enfoque, afinal de contas precisamos de um pouco de alegria também. Bom, estávamos nós sentados à mesa nos empanturrando feito mortos de fome com a ceia de Natal... Bom, na verdade quem realmente se atolava na ceia era apenas eu, pois a Olga estava sentada do meu lado e cuidando de uma criança que não me lembro agora de quem era filho. Mas tudo bem, esta parte de assunto é pouco relevante, no meu ponto de vista. Então... Ah! Estavam os netos, imóveis e olhando para o teto, a sobrinha se amarfanhando com um sujeito grande e estranho que mal conseguia dizer o próprio nome, a minha irmã com o marido, aquele arrogante e metido... À inglesa, por assim dizer... Ã... Ah, sim; e que por ironia da vida atualmente sofre de gases. Sabe que até vejo graça nisto. Minha filha também compareceu na tradicional reunião familiar. Logicamente que acompanhado do marido caloteiro que vive se metendo em encrencas, pois o sujeito é totalmente sem noção.
Olha, não sei se já mencionei isso, mas datas como Natal e Reveillon me causam agonia, por que as cidades tornam-se insuportáveis de tanta gente circulando feito um bando de baratas tontas; e o que é pior, vestidas com a fantasia da bondade, da confraternização e da amizade, quando querem, realmente, é desferir tapas umas nas outras. Ainda poderia citar uma outra coisa que me aborrece profundamente, preços altos dos produtos, sejam eles quais forem. Creio que se aproveitam do momento de bobeira da população neste período para se abusarem dos valores. No entanto, como resolvi tratar de outro assunto, assim farei, ainda que permaneça no mesmo tema, pois não quero me aborrecer com isto. Realmente falando, são justamente essas coisas, entre outras tantas, que me deixam emputecido nos finais de ano.
Mas... Do que falava eu mesmo? Oh, sim, claro, da ceia; usava eu roupas novas para a ocasião, e roupas que ganhei da Olga. O traje em questão, manchado na noite de 24 de dezembro com algumas bebidas, algumas comidas e algumas outras coisas, era formado pelas calças, camisa e um par de meias... Meias... Elas sempre aparecem como item de presente. Continuando; o traje que acabei de citar foi usado também no almoço de Natal, e com todas as manchas adquiridas na refeição inaugural. Contudo, tal situação não chegou a me assustar, pois sou acostumado com adornos alimentícios deste gênero pelas vestimentas. Quem costumava vir com escárnios para cima de mim sobre meus descuidos na hora de me alimentar era meu cunhado, mas depois que as flatulências dominaram sua pessoa ele se tornou mais, ou melhor, menos provocativo.
Então, à mesa, estávamos todos nós, falo do dia do Natal propriamente dito, e entre uma programação estúpida e outra que tevê nos apresentava, comíamos as coisas preparadas deliciosamente para a ocasião. Logicamente que tudo sem muita cerimônia, e ainda, cuidando para quebrar categoricamente todos os protocolos de etiqueta. Detalhe este piamente seguido pela criança, que fui descobrir mais tarde se tratar do neto da minha irmã. Mas, sobre os protocolos; sabe-se que são estas coisas que fazem as festas tornarem-se chatas. Agora tenho de dizer uma coisa: o encontro familiar fora bom, e o evento almoço chegou num clima de grande alegria... Todos que lá estavam trataram de se ocupar com seus próprios pratos em vez de se ocuparem com a vida alheia trazendo novidades desnecessárias ou comentários inúteis.
Enfim, o dia se passou e todos o aproveitaram da melhor maneira. Alguns amigos ligaram para mim a fim de desejar um bom Natal e tudo mais, muito embora nos os tenha atendido, pelo simples fato de que não gosto de telefones, e eles sabem disto. Portanto, se quiserem me ver terão de vir aqui em casa, ou contar com a sorte de me encontrar por aí, flanando pelas ruas, ou escorado em algum balcão de bar ou alguma mesa de algum café. Mas se quiserem vir aqui em casa neste momento poderão vir, mas terão de esperar também, pois estou contando com a boa vontade do peru, da maionese, do arroz e da farofa, ou o que sobrou disso tudo, despencar vaso sanitário a fora, pois essas comidinhas ainda estão encruadas na minha pança.
Esta era o neto da minha irmã, lambuzando-se com o que pôde e o que não pôde.
E aqui a família toda reunida; comendo, bebendo, peidando... e tudo mais.
FELIZ 2008
Após todas essas festas de fim de ano sem muito sentido já era tempo de começar tudo de novo. Ano novo, vida nova, problemas novos, risadas novas, piadas novas, enfim, tudo novo. Assim sendo estava eu sentado numa cadeira de praia tranquilamente à beira mar quando escutei alguém esgoelando para mim algumas palavras:
-- Baltazar, sai já daí! O sol está forte e, pelo que pude ver não está usando protetor solar. Gritou assim para mim este alguém que não pude identificar quem era por eu estar sem meus óculos de grau e sem meus óculos de sol, e falando em sol, eu estava recebendo sua luz diretamente em meus olhos, e isto me impedia de identificar quem gritava para mim... Ã... Parece-me que disse isso. Bom, que seja; mas voltando aos óculos, nem que os quisesse usar não poderia pelo fato de quando chegamos à praia a primeira coisa que fiz foi largá-los sei lá onde. Então, como não queria saber de nada nem de ninguém, tratei de fazer o que estava fazendo antes, ou seja, sentado na cadeira, olhando o mar e fazendo mais nada. Agora, falando em proteção; quem foi que disse que não estava protegido? Estava sim! Estava usando um chapéu cata-ovo que achei vagando numa caixa cheia de quinquilharias. É, foi isso mesmo.
Sabe, poderia fazer mil coisas naquela manhã de... De... Nem me lembro de qual dia aquela manhã pertencia. Poder fazer qualquer coisa eu poderia, mas preferi observar toda aquela paisagem marítima enquanto procurava me acomodar naquela incômoda cadeira. Então, lá pelas tantas, após sentir a brisa fresca soprando na minha cara, e olhar feito bobo as incessantes e incansáveis ondas estourando no raso, adormeci. E logo em seguida entrei num sono profundo com direito a sonhos e tudo mais. Daí por diante foi só alegria... Ou não; via ao longe um barco estranho navegando, chegava a ser engraçado até. Lá pelas tantas o barco veio se aproximando e se aproximando e aí percebi que se tratava de um barco viking. De repente um bando de gigantes louros pulou lá de dentro aos berros... Não! Isso, urravam sem parar. Todos armados, se bem que nem precisavam estar armados, pois eram grandes e fortes... Mas como gritavam. Eu já estava surdo de tanta gritaria. Gritavam para os que estavam na praia, que neste caso só tinha eu, depois gritavam uns para os outros e até para eles mesmos. Coisa de louco.
Na verdade não estava entendendo nada, e creio que nem eles estivem entendo alguma coisa, mas entender é uma das coisas que eles menos sabem na vida, vivem inventando lendas para criar uma possível razão para a deficiência que têm sobre entendimentos. Mas, deixe-me continuar; enquanto todos do bando gritavam sem parar para cima, para os lados, para baixo e para dentro de seus calções furados na bunda, um sujeito baixinho, barbudo, barrigudo, velho e com cara de louco, mais ainda que os loucos que gritavam sem parar saiu do barco, digo, pulou do barco, e caiu sobre os pés na areia, e com a cara de poucos amigos. Veio em minha direção mancando, e mancando por ter virado o pé na areia quando aterrissou do salto pouco elegante que deu.
Durante o trajeto que fez, trajeto este que por sinal foi muito mal escolhido, pois teve de desviar pedras e pequenos morros com a perna manca... Realmente o trajeto foi muito mal escolhido... Podia ter desviado dos morros por um caminho feito ao lado... Como é burro! Pensei. Então, durante sua horrível e vagarosa caminhada podia-se ouvir a música Frownland do extra maluco Captain Beefheart ao longe. E quando ele chegou perto de mim puder ver sua cara suada e carunchada, e o nariz imenso e imperfeito feito um morango torto, e ainda, cheio de cravos. Bom, depois ele pegou seu cachimbo babado e cutucou meu pé de plástico. Que estranho! Pensei novamente. Por que este idiota cutucaria meu pé deste jeito? Continuei pensando. E continuou cutucando e cutucando.
Depois que desistiu de cutucar meu pé resolveu cutucar minha perna. Foi aí que acordei, mas estranhamente vi um bando de gaivotas ao meu redor em vez dos gigantes vikings. Penso que tenha sido melhor assim, pois as gaivotas eu pude meter um ponta-pé nelas e pronto, tudo se resolveu, ao passo que com os vikings... Sei não. Ainda mais aqueles vikings gritantes, mais o baixinho carunchado e barrigudo e manco e suado... E aquele nariz... Imenso; cheio de cravos... Bleargh! Mas sabe, o problema de tudo isso foi descobrir que além das gaivotas tentarem me devorar a bicadas, foi sentir a ardência na pele por causa do sol. Provavelmente esta noite dormirei em pé besuntado com algum creme hidratante, talvez encostado em alguma parede, por que senão vai ser difícil. Contudo, o mais difícil vai ser agüentar a pessoa que me avisava para eu me cuidar. E tal pessoa, se não me falhe a memória auditiva, só podia ser a Olga. Só ela grita comigo daquele jeito. Mas tudo bem, agora é ter paciência e esperar que este estrago na pele não perpetue, senão serei alvo de chacota... E isto não quero ser.
Aqui os tais vikings gritavam e gritavam, por vezes miavam também. Não sei, talvez agissem desta maneira por causa da bebida... É, pode ser.
E este era o tal baixinho que me apareceu... Como era burro!
Mario Bourges 14:33 [+]
Quarta-feira, Novembro 14, 2007
Às vezes lembro com ternura da minha infância, das coisas que fazia para me divertir, das coisas que irritavam meus pais, meus familiares e a vizinhança de uma maneira geral. Sabe, era divertido correr ao redor das casas em dias de festa. Geralmente tinha muitas outras crianças correndo nas festas também, o que era bom, pois assim eu podia me juntar a elas. Realmente era muito divertido tudo aquilo. Com o tempo os movimentos desordenados, descoordenados, e até violentos, pela força que começava a brotar em meu corpo, fizeram com que meus amiguinhos da época das corridas em volta das casas deixassem de brincar comigo, suas mães alegavam que eu estava ficando muito violento para o restante do grupo.
Tive um desenvolvimento mais rápido que o normal para minha idade, muito embora minha linha de raciocínio continuasse a mesma porcaria, ou seja, brincar de correr, e correr em volta de casas... Ah, como eram bons aqueles tempos. Para minha alegria as outras crianças também começaram a crescer, logicamente que não na mesma proporção que eu, mas, enfim, cresceram. No entanto, eu continuava forte, pelo menos mais forte que as demais crianças... Forte e desengonçado, feito qualquer criança que cresce além e mais rápido que o normal.
Naquela época fui considerado uma bizarrice pelos moradores que compunham o visual pacato da rua onde morava. Todas as crianças daquela região, assim que seus pais souberam que um dia eu levei uma porção de meninas para baixo de uma casa para brincarmos de nem me lembro o que, não puderam mais brincar comigo. Aliás, ninguém mais podia brincar comigo. Eu me tornara uma ameaça para os bons costumes, mas isto segundo os olhos cafonas dos adultos daqueles ultrapassados anos corroídos pela pureza ignorante imposta à nossa sociedade. Contudo, as meninas nunca reclamaram das brincadeirinhas que eu inventei lá embaixo, no porão da casa que nem sei de quem era também... É... Já eram sinais de uma nova era.
O tempo passou, ainda bem, e com ele se foram os inocentes, ou nem tanto assim, anos da minha adorável infância atribulada. Digo atribulada pelo fato de que só me aquietava quando estava em estado febril. Coisa que era difícil de acontecer comigo por que vivia roubando laranjas, mexericas, limões, enfim, toda e qualquer fruta que fosse rica em vitamina C e que ficasse à mostra nos pés. Eu era o terror da vizinhança, o centro das atenções e o campeão de reclamações. Ninguém gostava de mim, nem meus pais. Mas isto são apenas detalhes, tolos e insignificantes detalhes.
Depois veio o tempo da pré-adolescência, em seguida da adolescência e finalmente da fase adulta... Que coisa mais chata. Ainda bem que logo fui para o quartel também. E lá fiquei por algumas dezenas de anos. Contudo, não tire conclusões apressadas, também não fiz muitos amigos por lá. Era um mundo hostil... Para qualquer um que chegasse perto de mim. Não gostava muito de pessoas me rodeando, me bajulando. Mas foi no quartel que me senti mais tranqüilo, quase não via as pessoas do mundo exterior, ou seja, aquelas consideradas normais. Com o tempo fiquei amigo do Azambuja, do Beleléu e de mais um que nunca soube do nome. Penso até que nem tinha nome aquele indivíduo. Mas está aí uma coisa que não faz a menor importância para mim; saber do nome de um sujeito que faz muito tempo que não o vejo... Besteira.
Em outro tempo conheci o Pereirinha... Bom, na verdade já o conhecia dos tempos de colégio, quando éramos crianças e coisa e tal, mas cada um foi fazer o que mais interessou, e aí a distância nos separou. Então, como havia começado a dizer, conheci novamente o Pereirinha, saíamos para dançar, digo, saíamos para vê-lo dançar, nunca gostei disto, apesar de já ter ganhado alguns concursos de bailado na caserna. Se bem que aquilo não conta. Só tinha maluco naquele lugar. Bom, mas isso é uma outra história, não compensa mencionar neste momento.
Um tempo depois, cansado de só ver homens, tanto no quartel quanto em qualquer lugar onde fosse, que por sinal eram lugares feios, sujos e indecentes, percebi que deveria conhecer alguém que pudesse enfeitar meus olhos, digo, meus olhares. Já estava cansado der ver tranqueiras. Sabe, existem épocas de nossas vidas em que devemos procurar coisas mais belas para se olhar, e assim poder admirar... Isto é tão bom. Então, num dado instante da vida, estava eu, perdido em lugares estranhos como: velórios, batizados, quermesses, jantares e chás beneficentes. Tudo para ver se encontrava alguém decente. Sorte minha que o esforço valeu à pena, e o melhor, nem precisei ficar muito tempo nesta parada onde a falsidade impera.
A Olga surgiu em minha vida quando eu, sentado certa vez numa banqueta ao lado de uma caixa de madeira cheia de ovos, sendo que seriam cozidos e preparados em algum prato gigante de maionese. Tudo bem, sempre gostei de maionese. E como foi que ela me conheceu? Sentou-se glamourosa ao meu lado enquanto eu, no meu total estado de quietude e tranqüilidade, dechavava sem dó e de maneira ininterrupta meu prato de maionese. Mas estranhamente ela gostou de mim, viu graça naquela cena grotesca. Vestida em sedas sorria vez por outra para minha pessoa. Quanto a mim, de cara para o prato, trajava, naquela época, uma camiseta furada nas costas junto com pequenas manchas de amora também nas costas, mas como vivia de casaco ninguém percebia estas particularidades.
As coisas aconteceram como tinham de acontecer, mesmo que ela sendo linda e se trajando e se portando de maneira aristocrática, acabou se rendendo aos meus estranhos encantos. Enfim, as coisas acontecem sem explicações, e quer saber de uma? Certas coisas nem precisam disto também, pois as explicações revelam segredos muitas vezes desnecessários ao bom entendimento. Se quisermos, podemos viver a vida inteira sem explicações. Seremos totais ignorantes, isto é certo, mas por outro lado seremos mais felizes, pois o encanto sobre todas as coisas continuará lá, envolvido numa aura mítica e... Mas o que é que estou falando? Droga! Acabou minha cerveja. Essas coisas sempre acontecem quando estou empolgado bebendo minha cerveja, ou meu vinho, ou meu uísque, ou minha vodca.
E cá estamos nós, sorrindo... E tudo mais.
Mario Bourges 16:57 [+]
Domingo, Novembro 11, 2007
COMO TEMPO É DINHEIRO RESOLVI EXPOR, LOGO DE UMA VEZ, O MOTIVO DESTA POSTAGEM. E JÁ QUE A ESTÓRIA JÁ FOI CONTADA ATRAVÉS DO CORREIO ELETRÔNICO, RESTOU APENAS O ESPAÇO PARA MOSTRAR A CAPA DO LIVRO.
Caso queira visualizar maior esta foto clique 35 vezes com o botão direito do mouse em cima da imagem e em seguida arraste-a para a pasta de sua preferência. Se não der certo, paciência. Afinal de contas você até que tentou fazer.
Mario Bourges 23:47 [+]
Quarta-feira, Outubro 24, 2007
Depois de muito tempo sem comer coisinhas boas, por que a Olga, de uma hora para outra, não me quis fazer mais, alegando aumento de colesterol e outras bobagens do gênero; aumento de colesterol, tanto o meu quanto o dela... Ã... Não me restou outra saída senão eu mesmo produzir algum quitute para saborear. Porém, é sabido que assim que fizesse teria de aumentar a receita, seja ela qual fosse, pois naturalmente que todos aqui de casa haveriam de comê-lo também, estando com o colesterol alto ou não. Assim sendo, pus-me a trabalhar em prol dos estômagos ansiosos por coisas gostosas para comer com chá no final de tarde.
Mestre cuca que sou, ou que almejo ser, coloquei um pomposo avental para evitar qualquer desastre com minhas vestimentas. No início, demorou um pouquinho até lembrar onde estavam as panelas, talheres e os ingredientes, detalhe este que só aumentou o prazer pela feitura do tal quitute. Um outro pequeno detalhe precisava ser acertado também; o que fazer para que todos saboreassem e me rendessem elogios. E após uns trinta minutos pensando sobre o que fazer uma panela estalou vazia sobre o fogão ardente em chamas... Ã... Um ligeiro descuido apenas. Deduzi que poderia ser por falta de uma boa música para embalar tal atividade.
Outros trinta minutos se passaram e um pano de prato ardeu em chamas enquanto o fogão também continuou ardendo em chamas... Bosta! Esqueci de desligar a porcaria do fogão, pensei. Tudo isso aconteceu e eu ainda sem saber o que tocar para me divertir. Foi aí que me decidi por ficar com o tal do Charles Aznavous. Mesmo por que era ele que acenava para mim no instante em que eu corria as gordas pálpebras e o nariz pelos discos empoeirados.
Lá pelas tantas percebi que tinha algo a me atrapalhar. Além do telefone que berra tinha a campainha frenética, histérica e impaciente a gritar com toda a força que seus diminutos pulmões eletrônicos permitem. Logicamente que tinha mais fatores para aumentar o nível das minhas atrapalhações; o Charles Aznavous era um desses outros fatores. Ouvir aquele disco não estava colaborando com a perfeita digestão da cerveja que decidi tomar.
Rina Ketty era a próxima da lista. Dois minutos depois o caos estava instaurado por todo o apartamento. O cachorro, aquele lambão de sempre, corria alegremente e tolamente atrás de uma maldita bolinha de borracha, a campainha não demonstrava sinais de fraqueza, o telefone... Bom, o telefone arranquei da parede só para mostrar quem é que mandava, e a dita Rina Ketty por pouco não foi arremessada janela a fora. Na seqüência Dulce Pontes manifestou interesse em tocar para mim, mas diante dos percalços surgidos no decorrer de pouquíssimo tempo optei por um tipo de música mais... Estilo Nick Cave entendeu? Ótimo, que bom que tenha entendido, pois não estou com paciência para reles explicações.
Resolvi então dar uma chance para o cachorro, dei um chute em sua bunda e mandei ele ficar quieto em algum canto qualquer. Depois fui atender a merda da porta e sua maldita campainha enquanto o sombrio Nick esbravejava Get Ready For Love. Sabe, penso que talvez não tenha sido uma boa idéia esta que tive. Obviamente que fui trocar de música; pus então o velho Tom Waits para acalmar os ânimos, ou para excitá-los de vez... Ah, sim, a campainha.
Dei uma colher de chá e fui atendê-la; era a Olga, e com cara de poucos amigos... Sair por aí enche o saco mesmo, pensei. E com este pensamento me dirigi até a cozinha, havia me decidido por tomar um chá preto com um pouco de leite e umas bolachinhas. Mas sabe, creio que o errado tende sempre acontecer comigo, pois não há de ver que, de repente, uma panela de pressão sem tampa e com um furo de derretimento no fundo fora encontrada no fogão... E o fogão? Já não estava mais ardendo em chamas. Havia acabado o gás. Que pena! Justo naquele momento que tinha juntado forças para começar com a peleja alimentícia. Mas fazer o quê! Paciência.
Quanto a Olga, assim que viu meu esforço para a contribuição do mal-estar do meio-ambiente lascou-me um pano molhado nas pernas. Admiro esta mulher, pois ela sempre tem um jeitinho todo especial para me lembrar de que não devo me aproximar das coisas quando o meu conhecimento sobre elas é pouco ou praticamente nulo. Então, com as pernas doídas e ligeiramente contrariado sobre todas as coisas, fui para rua gritar... De raiva, ou de dor, ou sei lá do que.
Quando vou para a cozinha até as panelas se escondem de mim, pois sabem que coisa boa não vai acontecer.
Mario Bourges 00:33 [+]
Quinta-feira, Outubro 18, 2007
Perdido estava eu caminhando por algumas vielas e cidadelas quando tropecei nuns pedregulhos. Ralei os joelhos e cotovelos e tudo mais. Fui amparado por moradores, ou escondidos, como queiram chamar, pois, pessoas que vivem socadas em becos e buracos não sei se são consideradas moradoras ou escondidas... Se bem que... Tanto faz. Não faz a menor diferença saber em que classe pertence tais pessoas. Mas voltando ao assunto principal; tinha passado uma tarde agradável com alguns desconhecidos num café no centro da cidade. Uma tarde levemente fria e com chuviscos, tipicamente curitibana, boa para se tomar um café ou um chá com leite.
Papo vem, papo foi até que tudo aquilo encheu o saco. Caso que era dado o momento para cair fora de lá antes que me aborrecesse e começasse a xingar todos que lá estavam. Sabe como são os velhos conversando; começam com um papo à toa, depois passam para a política, futebol, mulheres... Do tempo que faziam alguma coisa de fato, depois terminam se xingando, pois, logo após uma longa conversa nada muito produtiva, todas aquelas palavras largadas nas mesas e nos cantos do recinto não têm mais nada que se fazer além de baixarias.
Bom, depois que cai fora do tal café tratei de ir embora, já estava cansado, quase sem forças, um trapo por assim dizer. Então entrei no ônibus e esperei com que meu ponto chegasse o quanto antes. Por sorte, e quase que por milagre encontrei um lugar para sentar, aliás, existiam vários lugares vagos, coisa esta difícil de acontecer. Mas procurei o melhor lugar para mim, um lugar que tivesse uma boa vista da condução e ao mesmo tempo das ruas. Como estava cansado, lá pelas tantas adormeci de tanto olhar as coisas passarem do lado de fora. E adormeci sabendo que poderia acontecer algo de errado. Na verdade creio que desde o momento que entrei no ônibus já tinha algo de errado; nunca vi aquele motorista, muitos lugares vazios, tudo tranqüilo... Mas tudo bem.
Quase duas horas se passaram e eu ainda estava lá... Estranho; em tempos normais já teria levado uma chamada do motorista, pois teria chego ao final da linha. Foi aí que constatei que estava passando por uns lugares que jamais havia passado antes. Se bem que qualquer lugar para mim pode soar como novo ou estranho, mas aquilo já era demais. Parecia não ter mais fim. Assustado e ligeiramente babado apertei a campainha e me larguei pra fora, queria saber onde estava. Mas veja só quantos pensamentos passam em nossas cabeças em horas como estas. Poderia ter perguntado para o próprio motorista, ou para o cobrador que estava dormindo num dos bancos vagos.
Tudo bem, já era tarde para isso mesmo. Então resolvi caminhar até encontrar alguém para me informar de qualquer coisa. Incrível como as horas passaram rápido naquela tarde, já era noite, e pelo que pude perceber já era tarde também. Tudo para complicar com minha vida. Há esta altura dos fatos o pessoal de casa já devia estar louco à minha procura... Ou não. Um tanto de tempo depois encontrei um sujeito seminu se lavando na beirada de um riacho. Quando cheguei mais perto para pedir informações o tal sujeito assustado com minha presença se atirou na água e saiu nadando sei lá para onde. Não pude ver, estava escuro.
Então percebi que tinha me ferrado mesmo. O lugar onde eu estava parecia o fim do mundo, um meio de mato qualquer. Só não era desabitado por que ainda se via, muito ao longe, pequenas casas com suas luzezinhas fracas acesas. Telefone não haveria de ter, pensei. Estava perdido, continuei pensando. Contudo, lá pelas tantas alguém surgiu das trevas, pois não tinha poste de luz algum pela redondeza, e perguntou o que eu fazia por aquelas paragens. E eu, do alto da minha sabedoria respondi que não sabia e que não fazia a menor idéia de que lugar era aquele. Depois disso este alguém me conduziu até sua casa, ou esconderijo, sei lá. Convivi com esses tipos por alguns dias, semanas, ou meses, não sei bem ao certo quanto tempo fiquei lá. Só sei que assim que o dito ônibus apareceu por lá eu tratei de me enfiar nele e ficar bem acordado para não passar da Rui Barbosa. Senão, sei lá para que lado poderia eu seguir desta vez.
Assim que cheguei em casa percebi o quanto minha barba tinha crescido. Parecia até com aquele velho safado do Noel. Logicamente que antes de eu poder sentar e descansar e tomar uma cervejinha e soltar um arrotinho e dar aquela mijadinha tive de me explicar para a Olga, as crianças, o Pereirinha, que estava de cabeça para baixo e se balançando no lustre, o Azambuja arrastando cadeiras e sei lá mais o que, e o Adalberto, que havia perdido, ou melhor, quebrado seu rádio de ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves. No entanto, continuava ouvindo suas músicas, agora através de um aparelho de MP4... Modernizou... Tudo bem, faz parte. Já o Corpo de Bombeiros, as polícias Federal, Civil, Militar e a Interpol, as ambulâncias e o Esquadrão Ultra enfiaram suas violas nos seus devidos sacos e foram embora. Simples assim. Daí, em seguida, tomei um banhozinho e me arremessei na cama. Precisava dormir gostoso depois desta aventura besta. Dias depois precisava fazer algo interessante, então resolvi escrever um livro com um montão de besteiras escritas nele. É só.
Mario Bourges 01:53 [+]
Sexta-feira, Julho 27, 2007
Sentado em uma mesa de um café qualquer, tomando chá com leite e comendo uma fatia de uma torta qualquer estava eu, ouvindo a música Get Me Out dos britânicos do New Model Army e imaginando... Bobagens talvez, quando comecei a ver bizarrices pelas ruas da cidade. Bom, pelo menos na rua que passava em frente ao café... Se bem que, a coisa toda chegou a níveis alarmantes de domínio, tomou conta de toda a cidade; veja você que, enquanto triturava um pedaço de noz, ou sei lá que fruto era aquele que encontrei na torta, Toninhos e mais Toninhos da extinta Renovar passeavam pelas calçadas gritando: “Isso sim é Renovaar!”. Tal coisa me cheirou maluquice da parte de alguém, mas em princípio não dei muita atenção ao fato. Assim sendo, enfiei mais uma garfada desta torta, que não sabia de que sabor era, na boca.
Minutos mais tarde, durante uma tentativa frustrada de tirar resíduos da tal noz, ou seja lá o que fosse aquilo dos dentes, um caminhão do Lixo que não é Lixo passou anunciando aos berros que na Boca Maldita aconteceria uma apresentação espetacular da Família Folha. A partir daí passei a ver pessoas desfilando com cara de folha em vários lugares, e neste exato momento cuspi aquela maçaroca de nozes com ameixa ou tomate no chão do café, e fui até a porta do estabelecimento para conferir de perto o que meus olhos embaçados registraram estupefatos.
Contudo, quando consegui me levantar da cadeira resolvi, antes de executar a ação planejada, olhar ao meu redor, só por curiosidade, mas confesso que fiquei tremendamente assustado quando vi a clientela do recinto formada por vários oils mans. Todos dentro daquelas sungas de cores cítricas, porém, em diferentes tonalidades, mas claro, totalmente ridículas. Logicamente que todos estes seres estavam a me olhar e a cantar músicas do Elvis Presley. Apressei-me em pagar minha conta. Queria sair o mais rápido possível daquele ambiente ligeiramente doentio. Mas veja como são as coisas, pisar na merda sem escorregar nela não é tão emocionante, e comigo a coisa soou da maneira mais emocionante ainda. Quando me dirigi ao caixa dei de cara com o Inri Cristo fazendo a cobrança das contas. O que foi que fiz? Larguei o dinheiro no balcão com os dez por cento do garçom mais o dízimo para a paróquia e saí correndo.
Corri pelas ruas até não agüentar mais... Bom, pelo menos penso que corri, pois meu pé de plástico não me permite grandes movimentações além das caminhadas trôpegas por estas calçadas tortuosas que mais parecem os pensamentos da Maria Louca. E por falar nela, avistei mais de uma dúzia dela fazendo arrastão na Praça Osório e agarrando tudo quanto era gente fardada que passava por lá. Imediatamente tratei de mudar de rumo, dirigi-me para o lado da catedral. Lá eu peguei a saída da missa e suas dezenas de beatas com cara de sino badalando desvairadamente.
De repente tropecei em alguma coisa, e só tropecei pelo fato de correr, ou pelo menos tentar correr sem olhar para o caminho que segue. Onde tropecei? Em um dos pés daquele ser gigante, pavoroso e pelado que fica na Praça 19 de Dezembro. Refeito do tombo, mas avariado, cheio de escoriações e em piores condições daquelas que já estava, peguei uma rua qualquer e segui em frente. Um pouco mais adiante resolvi dobrar numa outra rua, pois já estava tempo demais caminhando na mesma direção. Lá pelas tantas estava eu diante daquele estranho tripé formado por um cemitério, uma pista de skate e um bar. Agora, diante destas opções só uma realmente era de meu agrado... Não! Claro que não era o cemitério! Era o bar, puxa vida! Quanta demora para entender meus gostos heim. Mas, tudo bem, já estou acostumado com ignorantes.
O bar era o Bar do Pudim, sem problemas até aí, o dono do estabelecimento tinha a aparência de um... Pudim, claro. Claro: veja; a esta altura dos fatos nada mais me assustava mais do que a famigerada Loira Fantasma, entidade esta que assustava taxistas no final da década de 70, e que, por sinal, compunha toda a clientela do boteco naquele momento. Que fiz eu? Borrei-me todo por certo. Que fiz eu depois? Saímos todos às pressas de lá, ou seja, eu, minha barriga, meu pé de plástico, meu cérebro embebido no formol e meu chapéu. E para onde fomos todos? Oras, rolamos eu e todos os meus apêndices rua abaixo até chegarmos perto do Largo da Ordem. Caminhei um pouco mais e lá me deparei com o Odil e seu Ao Distinto Cavalheiro e a turma toda em grande festa bem no meio do Largo ao som da música Maple Leaf Rag, um ragtime de primeira de Scott Joplin. E para completar a maluquice daquele instante, aquela horrível cabeça de cavalo que vomita água a me dizer: "vai mijar Baltazar, vai mijar Baltazar". Não sou especialista no assunto, mas comecei a crer que aquilo era um caso de... Histeria, talvez... Sei lá.
A coisa toda estava uma loucura. Uma situação incontrolável e tenebrosa. Tentava eu fugir de todas aquelas aparições, mas meus esforços eram inúteis. E após caminhar quadras e mais quadras em passadas alucinantes e desiguais me deparei, por mais uma vez, com o caminhão do Lixo que não é Lixo perto do Teatro Guairá tocando aquele sino idiota enquanto fazia seu percurso. Claro que a porra da Família Folha estava lá, sorrindo, com os sorrisos estúpidos que só as folhas sabem dar, e mais, defecando folhas de eucalipto. Enquanto todo devaneio, digo, pesadelo acontecia, tanto o Vampiro quanto a Polaquinha se esgueiravam pelos arbustos existentes no lado do teatro, e, em movimentos sincronizados e animalescos faziam um sexo pra lá de sanguinolento. O mais interessante, ou, o mais absurdo que essas coisas pudessem representar, ainda não se comparava com a frase que invariavelmente diziam para mim. Frase esta que era: "vai mijar Baltazar". Logicamente que considerei todas essas bobagens em bobagens puras, claro.
Então, quando tudo parecia fora de controle a coisa piorou de vez, e entre as armas de guerra da Praça do Expedicionário uma multidão de nós cegos, de orelhas-secas, de orelhas-moles, de Zé-orelhas e de bocas-de-burros gritavam, no maior clima apoteótico a seguinte frase: "vai mijar Baltazar". E depois destes incentivos não deu outra, parei de frente para a Praça Zacarias, isto depois de ter escorregado de bunda até lá, logicamente, e passei a urinar. E a urinar com todo o gosto ainda por cima.
Os rios da cidade tornaram-se caudalosos a partir daí. O Rio Ivo, fétido como sempre, continuou fétido depois do que fiz. Contudo, ficou mais volumoso, bonito até. Seu volume transpassou todas as barreiras impostas a ele. Inundou todo o centro da cidade... Curitiba parecia uma Veneza; não que isto seja alguma novidade... Mas; o Rio Belém teve seu volume triplicado, as favelas que ficam às margens deste rio desapareceram. Fui ovacionado. A elite municipal me aclamou herói. Um busto foi erguido em minha homenagem... Louros... Bom, quanto ao Rio Barigüi... Este sim, virou a vedete da cidade. Surgiram, em suas plácidas águas, ondas com mais de quinze metros. E nessas ondas gigantes a família de jacarés que habita o parque aproveitou as ondas para pegar jacaré... Ã... Houve até campeonato de surfe neste momento. Foi o maior sucesso.
Porém, em casa a história tomou um rumo diferente e alcançou níveis alarmantes de gritaria. Enquanto eu dava minhas braçadas espetaculares num magnífico nado estilo borboleta, a Olga se arremessava da cama para não morrer afogada pelos lençóis empapados que se transformavam categoricamente em ondas sacolejantes, típicas das marolas de alto-mar. Digo que até o Corpo de Bombeiros fora chamado para conter a inundação. Já o pessoal de casa, que tentava recobrar suas lembranças quase varridas de suas memórias, a Olga, minha senhora, preparava naquele momento um delicioso chinelo de borracha para minhas pernas... Mas isto é uma outra história.
Uma tarde tomando cerveja... que maravilha! Assim foi minha tarde.
Sucos também tomei, mas já começava a sentir um frio nos pés. Talvez fosse pela umidade do tempo. Afinal, caiu muita chuva por estes últimos dias.
A noite, antes de dormir, e por incrível que pareça, tomei um longo e relaxante banho.
E continuei no banho por mais alguns minutos. Bom, sei que após reclamações eu desliguei o chuveiro e fui dormir, um tanto enrugado até, mas tudo bem.
E sabe que depois que sonhei toda aquela maluquice pelas ruas e locais da cidade vi os familiares daquela empresa de chá dizendo sabe o que? Não! Não é: vai mijar Baltazar, e sim; vai tomar chá Baltazar. Engraçado isto não é? É, talvez seja.
Bom, depois de tudo que tomei, mais o relaxante banho não deu outra; alaguei tudo. Mijei, e mijei mesmo por sei lá quanto tempo. Ao final fiquei com as pernas inchadas pois a Olga me chinelou algumas dúzias de vezes. Mas tudo bem, pelo menos fiz meu xixizinho na buena.
Mario Bourges 16:59 [+]
Terça-feira, Julho 17, 2007
Nestes de tempos de calor errado estava eu assistindo tevê enquanto cortava e desencravava as unhas dos pés. Para me alegrar, ou pelo menos me incentivar nesta atividade nada agradável, deixei uma lata de cerveja parada diante de mim. Logicamente que fiz todo o trabalho sem tomar um único gole sequer, pois na última vez que resolvi beber e cortar as unhas dos pões não foi uma boa idéia; quase arranquei minha pele e por pouco não decepei meus dedos. E tudo isso por falta de habilidade com o cortador. Aliás, falta-me habilidade para lidar com qualquer coisa cortante... Até com aparelho de barbear eu me destruo.
Bom, o televisor estava ligado, mas eu não assistia nada também; primeiro por que não tem nada de bom para se ver, e segundo por que é um tanto perigoso para mim, tentar fazer duas ou mais atividades ao mesmo tempo quando estou de posse de algo cortante. Então, lá pelas tantas, depois de parecer que o mundo entrava realmente em harmonia para com a minha pessoa, sussurros da Olga surgiam sorrateiramente e com intenções marotas a ponto de tirar minha concentração. Se bem que para isto nem requer muita coisa. Mas... De quando em quando sentia sua língua fazendo uma varredura completa nas paredes mal arquitetadas de minhas orelhas. Calafrios percorriam pelo meu corpo estonteantemente. Sentidos estes que começavam nas minhas sobrancelhas esvoaçantes e escorregavam vertiginosamente até os poucos e zombeteiros pêlos que se esparramam irrisoriamente sobre os peitos horrendos dos meus pés brancos e chatos. Veja; na verdade apenas sobre um peito de pé, pois o outro é de plástico, sendo assim, não tem pêlos.
Então, sentindo-me dominado por uma sensação bestialmente incontrolável comecei a rebolar, digo, retorcer como se fosse uma lesma que cai inadvertidamente sobre um punhado de sal. A irracionalidade tomou conta da minha mente. Eu não respondia por mim... Bem; nunca respondi por mim mesmo, mas tudo bem, e após ficar em êxtase por duas ou três vezes, mais o ato de arrepiar e melar, consegui dominar meus sentimentos animalescos que brotaram em forma de peidos. Com isso pude sentir meu cérebro funcionando novamente. Que estranho, pensei, o que acabara de sentir fora, sem sombra de dúvida, algo único, e que me fizera levitar por alguns milionésimos de segundo, continuei pensando. Mas depois tudo parou de repente. Como se nada tivesse acontecido.
Depois de uns trinta ou quarenta minutos em um ritmo frenético de conflitos percebi que estava na mesma posição de quando me sentei para cortar as unhas. Porém, sem ao menos ter começado efetivamente a podar os cascos que contornam os horripilantes dedos dos meus famigerados pés. Daí resolvi olhar para os lados e procurar minha senhora, havia uma gostosinha sensação de... Sei lá o que no ar. Isto me fez sentir que algo de bom poderia acontecer a qualquer momento. Não encontrei a Olga do meu lado depois disto, em compensação encontrei uma trilha de pétalas de rosas espalhadas pelo chão. Vocês sabem que não gosto de flores, mas que se danem as tais pétalas caminhei por cima de todas elas até esfarelarem por completo. Quanto à unha, decidi-me abandonar esta idéia absurda. Mesmo por que, há qualquer momento eu posso fazer esta atividade de cortar unhas. Tenho tempo de sobra.
Aqui a Olga me observava enquanto eu tinha meus excessos e acessos de loucura... Tudo por causa de umas lambidas no ouvido.
Mario Bourges 13:55 [+]
Segunda-feira, Junho 04, 2007
Dia desses resolvemos sair em bando, feito jovens que saem em grupo para bagunçar, gritar, criar encrencas e tal. Logicamente que não faríamos bagunça, pois não conseguimos bagunçar, nem gritar, pois nossas cordas vocais já não são mais as mesmas de antigamente, quando podíamos, além de gritar, urrar, uivar, chiar, xingar e falar em voz alta, se assim quiséssemos. Agora, quanto ao fato de criar encrencas... Nem pensar. Não teríamos a menor condição de nos expor a situações de risco. Mesmo por que qualquer coisa que fuja de nossos alcances, tanto físico quanto mental, já pode ser considerada uma encrenca.
Então estávamos nós; eu mancando com meu pé de plástico e praguejando contra todos que viessem a cruzar minha frente, o Pereirinha com seus saltos mortais, saltos estes que nem posso olhar muito para não me causar vertigens, o Azambuja com suas esquisitices pra lá de manjadas, o Adalberto com sua surdez em desenvolvimento, pelo fato de viver com o ouvido grudado naquele rádio do ondas longas, ondas, médias, ondas curtas e almost waves, o sujeito que nem sei o nome e também nem faço questão de descobrir, pois isto para mim tanto faz, fazendo o que sempre faz quando está em nossa companhia, ou seja, alisando os poucos fios de cabelo com um minúsculo pente de cabelo de boneca. E para completar o time dos destrambelhados, o Beleléu com manias de apostas inúteis e estúpidas, além das jogatinas indesejadas.
E enquanto caminhávamos trôpegos pelas calçadas tortuosas e pelos asfaltos esburacados ouvíamos muitas e muitas músicas. Bom, pelo menos até o momento que o Adalberto enfiou o pé direito num buraco e o esquerdo derrapou para o lado. O resultado disto nem poderia ser diferente, perdemos nossa fonte musical, claro. Então o rádio mais o Great Lake Swimmers que estava tocando e o Adalberto se foram numa viagem vertiginosa até o chão, e foi um para cada lado. Sendo que nosso companheiro ainda teve sorte, se espatifou na calçada, já o rádio foi soltar seus cacos lá no asfalto, o conjunto que mencionei naquela hora também parou de tocar, e as pilhas... Ah, estas estampavam a liberdade em suas faces metálicas; apostaram uma corrida frenética até o primeiro bueiro que encontraram. Depois deste pequeno acidente nossa distração também se foi. Tudo bem, não estava mesmo com vontade de ouvir músicas.
Poderíamos, digo, o Pereirinha poderia ajudar o Adalberto a evitar o tombo, mas no fatídico momento ele estava interessado nas bundas que passavam por nós. Para dizer a verdade eu fui o único que conseguiu ver o desastre, pois todos os outros estavam acompanhando as bundas com seus olhos embotados, perdidos e empapuçados. E como todos estavam ocupados não quis atrapalhá-los. Se ajudei o homem a levantar do chão? Ora, qual nada! Minha hérnia de disco e meu nervo ciático não permitiram tal façanha. E por que os outros não o ajudaram a levantar? Pelo fato de que ainda estavam ocupados. Sendo assim, desta maneira, Adalberto se levantou sozinho e com muito custo.
Após o heróico e compenetrado esforço nosso amigo estava sobre seus pés... Finalmente. Chateou-se, pois seu adorável rádio havia se estatelado, junto com ele, pelo chão. Não tinha muito o que fazer naquele instante. Então ficamos em silêncio por algum tempo e decidimos que seria melhor voltarmos cada um para suas casas. Estava frio, o vento soprava forte e já estava para anoitecer, e como nesses últimos dias não estou enxergando muito bem por causa de uma conjuntivite preferi ir embora. Quanto ao Adalberto; deixamo-lo em casa, todo ralado, esfolado, rasgado, injuriado e acabrunhado, e ainda, sem o rádio. Bom, na verdade ele até foi junto, porém, nas condições que ficou não sei o que pode ser feito para melhorar... O ânimo do nosso amigo. Preciso dar um jeito de consertar este rádio o quanto antes. Sabe, gosto quando este aparelho passa uns dias comigo lá em casa. Fica tudo mais animado, ou menos chato, sei lá... Ah, tanto faz também.
Aqui a vitalidade de nosso grupo era motivo de inveja. Sempre unido para fazer qualquer tipo de coisa. Atualmente ele ainda continua unido, mas para: dores reumáticas, bursites e qualquer outra espécie de "ite", hérnias em geral, pressão arterial e problemas estomacais, e para qualquer outro probleminha que venha acontecer de fato ou psicológico.
Mario Bourges 14:00 [+]
Quinta-feira, Maio 24, 2007
Estava a observar o céu nublado com um ar infantil no rosto. Aquele tipo de coisa era o que eu ansiava por um bom tempo. Decididamente não gosto de olhar o céu sempre azul, com aquela cara de paisagem de aprendiz de pintor de aquarela que sempre pinta a casinha soltando fumaça pela chaminé no campo florido e que tem um belo fundo azul... Ui! Prefiro coisas mais sóbrias, densas, grotescas até. Então tomei meu chá preto com algumas gotas de leite, comi umas bolachinhas, enfiei meu chapéu na cabeça e debandei-me para a rua. Queria ver o efeito do tempo nublado na cara dos clones andantes bem de perto, clones estes, aliás, que se consideram seres humanos.
Por que, o quê? Que considero seres humanos como sendo clones? Ora essa! De quando em quando não dizem que tal criança é a cara do pai ou da mãe? Então... Clones... Ã, o que estava a dizer mesmo? Ah, sim; saí às ruas passear com meu ânimo enfiado no bolso e o chapéu sibilando uma canção dos The National sobre minha testa. Ótimo, pensei. Então dei de cara com um vento frio que arrepiou tudo. Minhas bolas quase gritaram quando o saco resolveu espremer. Mas tudo bem, gosto do frio. Só não gosto muito do efeito que ele causa em mim. Tremores, arrepios e a maldita coriza que surge para me incomodar nos momentos mais impróprios. Além da maldita idéia de ter de tomar banho. Pra que isto?
Entrei, depois de muito tempo sem fazer isto, no velho café que costumava freqüentar. Só velhos rabugentos, caquéticos, capengas, gagás... Bolhas; na verdade esta é a melhor definição para essa gente. Mas fiz de conta que nem conhecia ninguém. Se bem que nem os conhecia mesmo. Contudo, apesar de serem desconhecidos não os livra de meus comentários. Então me sentei à mesa, sozinho, de preferência, e pedi ao garçom um chá preto com leite e um pedaço de torta. Comi e bebi tranqüilamente, paguei minha conta, levantei-me e fui embora. Enquanto isso os velhos mofados, tagarelas e podres se entreolhavam e me olhavam como quem quisesse obter informações sobre minha pessoa e coisa e tal. Coisas de velho, naturalmente.
As coisas estavam chatas, os conhecidos não estavam comigo. Deviam estar ou dormindo, ou fazendo compras, ou mexendo com alguma menina nova que passa na rua com sua bundinha enfiada em justas calças, ou conferindo o resultado do jogo do bicho, ou tomando algumas doses de catuaba para fortalecer os ânimos, por que, ver bundas e chegar em casa com cara de bunda também não dá, ou ainda, e para completar, ouvindo músicas e mais músicas em rádios que possuem todo e qualquer tipo de sintonia. E estando as coisas chatas o melhor a fazer foi ir embora. Fui até a Rui Barbosa, tomei um ônibus e rumei para casa. No lotação encontrei o Beleléu enfiado num canto. Estava quieto, não parecia estar muito contente. Nem ao menos sorriu depois de ter me visto. Suas mãos e lábios roxos o denunciavam; estava com frio... Coisas de velho.
O frio deixou com que as pessoas ficassem zanzavando de um lado para outro nas ruas com cara de mesma coisa.
Mario Bourges 15:49 [+]
Sábado, Maio 05, 2007
ANNO IV
Estava eu com a cabeça pensando numa música do Abba enquanto via a boca da minha sogra abrir e fechar em movimentos frenéticos. Na certa estava numa falação sem tamanho. E se bem a conheço, devia estar ela falando de coisas sem sentido... Aliás, ela sempre diz coisas sem sentido. Por sorte meus ouvidos se trancam automaticamente quando isto acontece. Mas talvez o que estivesse me deixando assim, desatento e com a cabeça numa música qualquer do Abba, e também meio não sei o quê, fosse o forte cheiro de cachaça que a velha exalava naquela tarde. Não que eu não goste do cheiro... Da cachaça, logicamente, mas misturado com cheiro de romópis mais o cheiro da mulher que lembra uma barra de sabão de coco... Definitivamente isto não me agrada em nada. Além do quê, ficar olhando a baba se acumulando, num primeiro momento num canto de sua boca, e depois assumindo a forma de uma pipoca saltitante que ia de um canto a outro naquele orifício bucal medonho me deixou perturbado realmente.
Contudo, pensei, tal bizarrice não poderia deixar minha tarde tão mais trágica do que ela já costuma ser; liguei para o Azambuja, para o Pereirinha, para o Adalberto, para o Odil e para um lá que não sei o nome a fim de comunicar-lhes que eu queria beber, e beber para esquecer ou riscar esta tarde de minha vida. Então combinei apenas com o Odil e este ser que não sei e também nem me interessa saber do nome dele, pois o Azambuja devia estar deitado ou contando quantos defeitos devem ter nas paredes da casa dele, ou as duas coisas juntas, sei lá. Já o Pereirinha devia ou estar se amarrotando com alguma nova namorada ou ameaçando se atirar pela janela de seu apartamento... Mas não precisa ficar assustado com esta atitude. Na verdade já vi estas coisas acontecerem algumas vezes... O cara é de morte; ele faz tudo sem medo, e o pior é que ele consegue fazer... Que bom... Para ele, claro, por que para mim isto não faz a menor diferença.
Quanto ao Adalberto... Este é complicado, digo, este é o mais complicado de se lidar, pois... Nem sei por que ainda tento ligar para este sujeito, nunca atendeu a um único telefonema meu sequer. Se bem que eu também não tenho o hábito de atender telefonemas, mas isso não conta, eu sou diferente mesmo, não preciso dar atenção a estes estúpidos aparelhos. Mas deixemos estes detalhes absurdos e vamos logo ao que interessa; acontece que teve uma festa, uma grande festa na verdade. O Odil, habilidoso que só ele, preparou um veículo especial para este dia, mandou fazer em enorme canivete suíço motorizado. Parece absurdo o que acabei de contar não é mesmo? Também pensei quando vi aquele trambolho estacionando, digo, subindo por cima das calçadas e derrubando umas duas ou três placas de trânsito logo de cara. E depois que toda esta bagunça começou acontecer a porra da lâmina do canivete gigante, lâmina esta que tinha pelo menos uns quatro metros de comprimento, soltou-se do corpo daquele negócio e decapitou outras três ou quatro placas de trânsito antes que eu pudesse piscar ou respirar... Um perigo esta coisa, isto sim.
Bom, ainda bem que não aconteceu nada além deste ocorrido. Então fui facilmente convencido de que seria bom eu ir até o bar, que iria ter bebidas e mais bebidas, comidas e mais comidas, agitos e mais agitos, além das exorbitantes ressacas e mais ressacas. No meu ponto de vista, uma coisa pra lá de tradicional. Mas tudo bem, fomos ao bar então, eu e o Odil a bordo do tal canivetão suíço. O problema não consistia em andar de canivete pelas ruas, o problema estava na tal da lâmina que volta e meia se desprendia do corpo do veículo. E quando isto acontecia dava pano pra manga para o velho companheiro proprietário do bar e do incrível canivetemóvel, pois a lâmina, de aproximadamente quatro metros, se projetava com uma velocidade estrondosa para frente e para um lado. Consecutivamente fazia com que o estranho automóvel perdesse o controle. Aí a gritaria era geral, tanto nossa quanto do pessoal na rua que via aquela monstruosidade praticamente se amontoando por cima de tudo quanto era coisa em seu dificultoso trajeto.
Lá pelas tantas, após muitos problemas com carros, ônibus, placas e sei lá mais o quê, chegamos definitivamente ao bar, e mortos de sede. Coisa esta que já era de se esperar, afinal de contas fazia calor. E chegamos botando pra quebrar com a merda do canivete-carro cheio de enfeites esparramados ao longo de seu formato oblongo. Agora você deve estar pensando que isto que estou contando é pura fábula ou uma coisa qualquer, mas não é não. Contudo, se quiser acreditar na história acredite, se não quiser... Que não acredite, oras. Só não me aborreça com perguntas impertinentes ou com tolices em forma de perguntas.
Retornando ao assunto; voltamos e estacionamos o veículo por cima de uma caçamba que estava no acostamento da rua, pois só havia este lugar com certa facilidade de estacionamento para aquela coisa do Odil. Mas também, quando conseguimos descer daquilo foi uma ovação só na entrada do bar. Uma enorme faixa de uma esquina à outra dando os parabéns para mim, isto pelo fato dos quatro anos de existência do blogue. Coisa esta que nem lembrava mais. No entanto tive um pouco de dificuldade para a locomoção pelo fato de meu pé de plástico ter engatado num daqueles apetrechos do tal canivete, e só consegui perceber a pequena tesourinha de um metro e oitenta de tamanho depois que já havia cortado uns dois dedos do cujo pé, mais um pedaço das minhas calças. Por sorte não sinto mais nem dor nem cócegas. Coisas estas que não suporto sentir. Tudo bem. O problema aí ficou apenas nas calças, mas... Tudo bem também.
Contudo acabou gerando um clima estranho entre os freqüentadores do boteco... Pois ninguém sabia se o ocorrido seria motivo para beber mais ou não. Com isso suas caras moles ficaram ainda mais moles pelo efeito da bebida que fazia tudo borbulhar em suas mentes alagadas de chope, e os sorrisos bobos e engordurados pelas costeletas de porco que estavam comendo continuaram bobos e até mais engordurados que antes. Então o maestro Matoso deu um ¿vai¿ e todos voltaram às risadas descoordenadas feito os passos ensaiados para a música que todos iriam dançar mais tarde na rua. Que música dançariam? Não sei, talvez a Macarena, ou talvez uma música do Menudo... Sei lá. O importante nesta história foi que ninguém ficou se reprimindo nos cantos do boteco. Aliás, nem tinha espaço suficiente para alguém se reprimir, pois o Distinto Cavalheiro estava simplesmente lotado. O máximo que poderia acontecer era do sujeito ficar espremido, isso sim.
Danças à parte os ensaios aconteciam por todas as partes e a todo momento.
Baterias de fogos estouraram incessantemente pela região do bar, muita animação... Até as moças da dita "vida fácil", que de fácil não tem nada, resolveram entrar na festa. Trataram de se organizar e... De que jeito? Não sei. E organizar aqueles que já haviam passado do ponto de bebedeira e se encontravam tombados nas calçadas e ruas. Agora difícil mesmo, além de conseguir um espaço suficientemente bom na calçada, pelo fato da quantidade quase incontável de pessoas, mais as dezenas de carrinhos de pipoca, cachorro-quente e outras coisas que nem lembro ou nem soube ao certo o que eram na verdade, espalhados pelos poucos metros quadrados de petit pavés dedicados ao estabelecimento em questão, foi de conseguir, de fato, ir ao sanitário. Ô dificuldade que foi isto.
Por lá todos bebiam... e bebiam de verdade. Não era só conversar fiada.
Os dois sanitários que ficam por lá, tranqüilizados em dias normais, estufaram com a enorme quantidade de pessoas que adentravam sequencialmente num ritmo frenético. O motivo, fora a quantidade absurda de chope consumido pelo pessoal, foi a degustação descoordenada e imprevista de um lanche diferente que uma empresa resolveu fazer. Comer a tal da Guacamole naquela noite deixou a mim e aos outros que lá estavam moles, e ainda, fazendo coisas moles. Particularmente falando, não foi nossa melhor escolha. Mas, enfim... Já foi. Então, músicas, bebidas, comidas, coisas moles, mais bebidas e comidas e mais coisas moles, gritarias, mais coisas moles e mais músicas à parte, era momento de regressar ao lar. Já se fazia tarde, e então, aproveitei a deixa de uma coisa mole e outra para correr até a Rui Barbosa e pegar o último ônibus para casa.
O pessoal da empresa, todos solícitos, ofereciam de bom grado o apetitoso prato.
Muita gente curtindo aquela fominha, de tanto beber, arriscou a tal da Guacamole. O resultado...
Contudo, nesta agitação toda da despedida... Do bar, logicamente, pois estava tudo muito cheio e não via quase ninguém de conhecido, encontrei meus amigos esbranquiçados e cambaleando de fraqueza na calçada. O motivo? Coisas moles. Bom, segundo eles estavam na festa desde quando ela começou, mas como estava insuportavelmente lotado, incluindo aí, e dando grande destaque ao sanitário, por causa da Guacamole, não conseguimos nos encontrar. Talvez até tenhamos entrados juntos alguma vez no banheiro, pois entrei tantas outras vezes e acompanhado com tantas outras pessoas que... Não dava tempo de esperar um sair para outro entrar. Ficávamos lá, num revezamento constante de vaso sanitário. Acredito até na hipótese de que o Odil irá substituir os azulejos e quadros que compõem tais cômodos, por que... Que coisa horrível. Sei lá. Tudo bem, sem problemas, digo, sem grandes problemas, pois a vontade de aliviar a bexiga era grande, além, é claro, das coisas moles também... Nada que uma porta de loja ou canteiro qualquer não resolvesse. Mas é isso. Até o nosso próximo encontro.
Tirando o pequeno probleminha ocorrido tudo se resolveu, e para variar, foi uma grande festa. Até a imprensa especializada esteve lá para cobrir o evento.
Mario Bourges 16:55 [+]
Quarta-feira, Abril 25, 2007
Por esses dias me peguei em lembranças. Viagens ao meu passado, desde quando era criança e coisa e tal. Dizem que recordar é viver; não sei se isso é válido dizer, mas é que é bom, isso é... Se bem que quando começo a lembrar de minha mãe, meu pai, meu tio Rodolfo e minha tia Judite, e todos eles brigando comigo por nenhuma razão, pelo menos nenhuma que tivesse razão para mim, me dá vontade de chorar. Por sorte ainda tenho a figura de meu avô, como eu gostava dele... Mas espere um pouco; foi ele que me deu um relógio quebrado de herança enquanto minha irmã ganhou um monte de coisas daquele velho safado e mulherengo. Não se perdeu nada quando ele afundou junto com aquele tal de Titanic. Aliás, penso até que tenham afundado o navio para se livrarem daquele chato.
Continuando e mudando um pouco o enfoque destas lembranças... Mas aquelas broncas que eu levava de minha mãe não saem da lembrança. Ela dizia que eu era um sujeitinho imprestável; que não prestava nem para chorar. Certava vez ela me largou numa feira e eu fiquei lá plantado por horas olhando para todos os lados sem saber o que dizer ou fazer. Lágrimas vinham aos meus olhos, mas não sabia direito como deixar a coisa emocionante. Portanto, para quem me visse, pensaria que algo teria caído nos meus olhos apenas, um cisco, por exemplo. Pensaria que isto era coisa sem importância e coisa e tal. Gritar pelo nome de minha mãe? Não! Eu morreria de vergonha se tivesse de gritar alguma coisa, qualquer coisa que fosse. E se por um acaso viesse a fazer isso levaria uma surra.
Voltando agora para minha realidade; nesta segunda-feira acordei entre 5h e 6h, e como não tinha mais nada a fazer fui para a janela observar a transformação da noite em dia. E enquanto ou olhava a escuridão percebi a movimentação do cotidiano começando. Primeiro passou o entregador de jornal insandecidamente com sua bicicleta repleta de periódicos descendo uma ladeira a toda velocidade para fazer suas entregas. Depois vi o proprietário da panificadora abrindo a porta do estabelecimento com o auxílio de mais duas pessoas... É, o dia estava começando, pensei. Momentos mais tarde vi o tal entregador de jornais empurrando sua bicicleta com bastante dificuldade. Mais tarde ele teria de consertar o aro dianteiro, pois ficou todo entortado. Provavelmente rebentou-se em algum muro, ou poste, ou em algum carro que estivesse estacionado, ou andando, sei lá.
Lá pelas tantas senti um cheiro de peido na sala, em princípio pensei que fosse o guapeca de casa, mas ele estava dormindo lá no nosso quarto. Aliás, este foi o cômodo que ele adotou para passar as noites. Talvez seja até este o motivo de eu perder o sono e acordar de madrugada; o bicho come igual a um sei lá o que antes de dormir depois passa mal, aí fica resmungando a noite inteira. E com toda a barulheira que ele faz acabo acordando. Bicho miserável. Mas dando continuidade; o cheiro se tornou intenso na sala, pensei até que fosse eu o responsável pelo gás expelido no ar, mas logo descartei esta hipótese, pois os meus são mais brandos.
Então, quando eu já começava a me acostumar com aquela fedentina, uma fumaça surgiu de repente e, como num passe de mágica, surgiu um velho barbudo, levemente barrigudo e gesticulando coisas como se fosse um mágico em dia de apresentação. E toda esta encenação com uma música de Nick Cave ao fundo. Bem teatral mesmo. Depois mudou para uma música mais sóbria, ou mais chorosa, ou, sei lá.
-- Valha-me, Baltazar! Salda-me, homem, se quiser. Se não quiser também não faz a menor diferença, pois sou Eu, o teu chapa. Gritou assim o tal velho com seus cabelos emaranhados e cheirando à fritura.
-- Oh, és Tu homem? Perguntei-lhe assim, num misto de assombrado e surpreso.
-- Ô Balta; pare com esta cena ridícula. Até parece que viu um fantasma. Sou apenas Eu que veio te visitar, pois estava de saco cheio de ver aqueles anjinhos fresquinhos fazendo suas tradicionais fresquices pelo céu... Céu também é uma maneira de dizer. Aliás, quem inventou esta história de céu, de paraíso e esta coisa toda acreditava mesmo que fosse assim. Mas não vou discordar dos ideais dele. E sabe que mesmo depois de 3 mil, ou 4 mil anos passados este sujeito continua alucinado? Não teve céu para consertar este miserável. Bom, cada um vê e acredita naquilo que quer. E não sou Eu quem vai mudar esta linha de pensamento. Para ter uma idéia do que acabei de dizer, posso surgir deste mesmo jeito que surgi para você em uma igreja repleta de cristãos e todos, Eu disse todos, incluindo aí o padre da paróquia, correrão de Mim que nem não sei o quê. Dirão até que coisa do capeta o que acabaram de ver. Falando em capeta; outra história mal contada... Coisa de romano. De certa forma eles foram bastante espertos ao inventar tal entidade e toda esta carochinha religiosa. Bom, na verdade eles não fizeram por mal nem erraram tão feio quanto penso, pois realmente o mal existe, caso contrário tudo descambaria para um lado só da balança. Mas também não é da forma que costumam dizer por aí. Inventam coisas demais. Mas isto é uma outra história. E por que acabei de dizer tudo isso? Eu é que sei, oras? Então esqueça, vamos. Disse-me assim, elucidamente, ou para terminar de confundir de vez e piorar minha compreensão sobre qualquer coisa.
Aquilo tudo estava soando de maneira incompreensível para meus ouvidos. Meus pensamentos estavam longe, meus olhares perdidos e uma conversa estranha. Nada daquilo parecia estar de acordo para mim. Alguma coisa parecia destoar de meus conceitos... Mas o que é que estou dizendo, digo, pensando? Conceitos são coisas que sempre gostei de criticar e...
-- Está pensando bem meu velho; conceitos surgem através de consensos, que muitas vezes não condizem com seu ou meu gosto pessoal. E em se tratando de religião os conceitos, na maioria das vezes, batem de frente com qualquer coisa que eu venha a pensar, pois nenhuma das pessoas que inventou um termo ou uma lei perguntou a Mim se estava certo ou não no momento de escrever na tal Bíblia... Aliás... Deixe para lá, você não vai entender mesmo. Enfatizou assim o Todo Poderoso enquanto colocava para tocar um disco de Joseph Arthur, pois aquele disco do Johann Sebastian Bach já tinha enchido o nosso saco.
Quando estava para perguntar sobre a forma que ele realmente tem ele me disse:
-- Tal dúvida fica para outra ocasião; daí já aproveito para responder a mesma pergunta para uma lesma que topei ontem não lembro onde. Falou-me assim.
-- Lesma? Lesmas falam? Perguntei todo cheio de curiosidade.
-- Não vá me dizer que você acredita naquela história de que só humanos têm o poder da comunicação, ainda que de maneira primitiva? Todos os outros seres se comunicam. Afinal, como você pensa que eu descubro tudo por aí? Ô Baltazar... Quanta prepotência você expeliu agora. Não vá dizer que acredita naquele papo-furado de que só humanos têm alma... Alma... Outro assunto que daria uma tarde de prosa. Bom, tenho de ir agora. Vi, durante nossa agradável conversa, que uns anjinhos boiolinhas estão metendo seus dedos engordurados de algodão-doce nos meus vinis do New Model Army. Decididamente não gosto quando fazem isto. Até outra hora meu velho. Falou o que falou e sumiu numa nuvem incandescente de gases fétidos. Quanto a mim, fiquei ali, pensando na vida e refletindo sobre as palavras ditas. Em seguida amanheceu de fato, daí fui dormir novamente, pois estava cansado de tudo isso.
Aqui estava o entregador de jornais; "abraçando" um poste. Por isso sua bicicleta ficou torta.
Mario Bourges 14:52 [+]
Quarta-feira, Abril 18, 2007
Por esses dias resolvi fazer algo inusitado, diferente, estranho até, mas claro, dentro de minhas capacidades. O que fiz? Fui a uma competição... Na verdade era rinha de insetos. Lá aconteceram combates entre pulgas, percevejos, piolhos, baratas. Se eu vi alguma coisa? Claro que não. Fiquei na ala daqueles que não pagam para ver essas nojeiras, e para aqueles que ficam nesta ala não recebem na entrada a luneta ou o binóculos. Até por que, se eu quisesse ver, e tivesse algum destes aparatos, não conseguiria ver tal bizarrice pelo fato de que um gordão assentou sua enorme bunda encerada em uma cadeira não menos encerada bem na minha frente. De modo que se posicionou categoricamente entre eu e o estranho espetáculo. De certo modo isto foi até um alívio para mim.
Mas então, o que fazia eu lá? Oras, conversava com outros tantos que não queriam olhar para esta besteira. Passamos o tempo todo bebendo e conversando sobre qualquer outra coisa sem importância... Coisas de pessoas com tempo de sobra e que não sabem como administrar este tempo, nem administrar outras pessoas, nem a vida, nem nada. Como poderia resumir isso tudo numa só palavra? Isto é simples: aposentado. Mas continuando; posso dizer que vivi horas agradáveis, ainda que, por vez ou outra sentisse um dos competidores, digo, dos combatentes da rinha, dentro de seus momentos de descanso, nos atacando por debaixo de nossas roupas nos tirando do descanso. E quando isso acontecia, seus donos ficavam enfurecidos com a platéia, pois esta, parva de tanta coceira, acabavam eliminando seus estúpidos investimentos com um simples espremer de unhas ou uma simples chinelada. Afinal de contas é muito difícil enxergar o número nas costas destes bravos e enérgicos e diminutos lutadores no escuro sem porra da luneta ou dos binóculos ou de uma miserável lanterna. Definitivamente não dá.
E quando ocorrem tais acidentes fecha o pau entre a platéia e os investidores, digo, loucos. Se bem que, no final das contas, todos que vão lá são, e só podem ser considerados loucos. Falando em loucura, as músicas que lá tocavam também eram loucas, consecutivamente, incentivavam a todos cometerem loucuras, situação esta totalmente plausível partindo de um ambiente destes. Um alto-falante no topo de um barracão berrava umas mazurcas sem parar... Uma verdadeira loucura. Se o Adalberto estivesse por lá diria que era coisa dele. Enfim, apesar de tudo, gostei daquilo. Pretendo até voltar mais vezes naquela espelunca. O problema de ir a um lugar como este é que quando se volta para casa sempre vem com um daqueles micro-lutadores agarrado em uma das pernas e chupando sangue, e ainda, se tiver sorte, ou azar, depende aí do ponto de vista, vem junto com o micro-atleta toda a comitiva dele. Confesso que isto é um tanto desagradável, mas sei lá. Tantas coisas são, mas continuamos fazendo, ou aceitando sem reclamar. É isso, até uma próxima.
Mais tarde descobri como os "empresários" contratam, ou capturam seus lutadores. Veja você também como eles fazem isso:
Pulgas de gatos são retiradas pelos próprios gatos. Só eles sabem como fazer isto.
Para as pulgas de cachorrinhos de madames, ou, bundinhas, como são mais conhecidas, são contratadas pessoas de grande porte e que saibam usar de "psicologia" para desempenhar tal papel.
Pulgas de cachorrinhos vira-latas são extraídas com piadas contadas por palhaços contratados pela comissão organizadora da rinha. Nada muito diferente do que acontece com nós humanos; alguém veste um terno, se enfeita bem, conta uma lorota qualquer para a gente ficar alegre e pronto, leva nossos votos, nossos trocados e o que mais quiser. Quanto às baratas, piolhos e sei lá mais o que, basta revirar os lixões e os bueiros da cidade, ou as cabeças das crianças desamparadas pela sociedade.
Mario Bourges 17:02 [+]
Quinta-feira, Abril 05, 2007
Estava eu sentado tranquilamente numa pequena banqueta, pois minha poltrona fora doada para uma instituição de caridade. Contudo ninguém da tal instituição aceitou a oferta pelo fato da poltrona estar praticamente destruída, fedida e sei lá mais o que de ruim. Então acabaram levando para um lixão da cidade, ou para alguém incinerar aquilo, não sei ao certo. Bom, estava eu lá, assistindo um daqueles programinhas xaropes onde o apresentador fala uma estupidez qualquer para começar com as conversas, enquanto isso é interrompido por um convidado para ouvir uma outra estupidez qualquer, até que entra um segundo convidado e fala uma estupidez sem tamanho, aí todos discutem loucamente até chegarem a resultado algum, tamanha estupidez.
Desta vez o tal programa apresentava uma teoria estúpida, quero dizer, mais uma; falavam, tanto os convidados quanto o apresentador, uma besteira atrás da outra. Diziam que a calvície é resultado da impotência sexual e vice-versa, que todo o careca é um inútil na cama por não saber disso, não saber nem que é inútil e nem que é calvo... Ã... Bom, só sei dizer que acabei cochilando sentado na banqueta mesmo; primeiro por que aquela ladainha, aquela besteira toda estava pra lá de chata, segundo por que o calor estava insuportável, e isto fez baixar minha pressão arterial. Logicamente que o fator álcool facilitou minha vida causando-me sono. Livrou-me, digamos assim, deste martírio televisivo.
Contudo, quando já me encontrava num mundo maravilhoso do faz-de-conta, no mundo dos sonhos e coisa e tal, recebi a visita do detetive belga, o Hercule Poirot, sua estúpida criada Antonielle, seu ajudante o capitão Hastings e a senhorita... Não lembro do nome dela. Circulavam eles pelos ambientes que minha mente criava todo instante em busca de explicações para o aparecimento de um pé de plástico sobre a mesa onde o famoso detetive costuma tomar café da manhã. Maluquices à parte, deixe-me contar como as coisas aconteceram... No sonho, claro.
Poirot: -- Antonielle, Antonielle, venha cá imediatamente! Disse Poirot assim à sua criada enquanto tamborilava os dedos da mão direita insistentemente sobre o tampo da mesa onde costuma tomar café.
Antonielle: -- Ques qui ces¿t mousieur Poirot? Perguntou toda agitada procurando se restabelecer da pequena corrida que dera até lá, e ainda, procurando arrumar a madeixa que se esvoaçara neste período de pressa incalculado.
Poirot: -- Venha cá e me diga o que é isto. Ordenou-lhe enquanto indicava nojentamente para o tal pé. Então emendou: -- Como já suspeitava; não sabe dizer o que é isso. Aliás, não sei por que ainda insisto em fazer com que outras pessoas participem de uma investigação... Nunca sabem nada, nunca ouvem nada, nunca nada... Hastings! Onde está você neste exato momento? Perguntou em tom alto e para o alto, e lógico, levemente enfurecido por também não saber nada que acontece dentro de sua própria casa.
Hastings: Em tom solene, e tipicamente inglês responde: -- Yes!?
Poirot: -- Preciso que me acompanhe imediatamente ao hospital, ou ao necrotério, ou a uma casa de artigos de umbanda. Disse-lhe nervosamente enquanto tentava desatar o nó do cadarço do sapato esquerdo, pois havia apertado demais e seu pé estava levemente doído. Contudo, teve um rompante na emoção e gritou: -- Hastings! Precisamos pegar um avião e viajar para Curitíbia imediatamente.
Hastings: -- O senhor quis dizer Curitiba não é mesmo? Fez esta pergunta só para testar a agudez da memória do companheiro.
Poirot: -- Não Hastings, quis dizer Curitíbia mesmo, e por quê? Por que naquela cidade todos os moradores se parecem com o osso da perna, a tíbia; duros no contato e doídos quando se experimenta diretamente numa perna desprotegida. Mas tudo bem, os ingleses funcionam na mesma proporção. Emendou o detetive durante uma alisada no bigode. -- Continuando; precisamos ir até lá por que desconfio que é lá que está a resposta para o aparecimento deste pé de plástico aqui. Não que uma coisa tenha haver com a outra mas... Ã... Wherever.
Então, Poirot, Hastings, a criada ignorante, a Antonielle, e a senhorita... Que não me lembro do nome, e que até agora não se manifestou no sonho, fizeram suas malas e se prepararam para viajar. Contudo, como estavam no meu sonho a coisa toda virou numa loucura só. Lá pelas tantas a xata da Xuxa aparexeu no meu xonho gritando feito uma desesperada ao lado do Tatu da Ilha da Fantasia enquanto tocava, ao fundo, um Ragtime tocado por Scott Joplin. Logicamente que o som vinha do rádio do Adalberto, sim, aquele magnífico exemplar de aparelho sonoro que tem ondas longas, ondas médias, ondas curtas e almost waves.
E depois que todos se abraçaram como se fizessem parte de uma grande comunidade celta, dançaram uma música das Frenéticas quando viram que o Alemão do Big Brother ganhou naquela pura armação que se diz jogo. A esta altura dos acontecimentos eu suava sem parar na tal banqueta, de tão desesperado que estava. O Gran Finale desta história foi mais louco ainda; este tal de Alemão, por alguma razão pela qual desconheço, tomou um cacete num corredor polonês, organizado pela empresa televisiva em questão, sendo que não faço a mínima questão em divulgar, e depois todos foram saindo pela boca de um enorme coelho da Páscoa gigante e cor-de-rosa.
Logicamente que acordei suando, trêmulo e morrendo de sede. Depois voltei para ver o que passava na televisão; era um programa de auditório onde tinha roletas para serem rodadas, balões para serem estourados, incluindo aí os sacos dos telespectadores, e para completar, muita pegadinha e piadinha sem graça... Falando em coelho... Resolvi sair para procurar uns ovos de chocolate para comprar. Sabe, adoro comer este tipo de coisa, ainda mais depois de sonhar uma coisa tão fora de jeito como esta.
Aqui talvez tenha sido uma continuação do meu sonho, se é que posso chamar isto de sonho. No entanto... Sei lá. Já o tal do Poirot, Hastings, Antonielle, a senhorita... Não lembro, a Xuxa, o Alemão, o Tatu, o coelho da Páscoa e sei lá mais quem... Que sei lá eu onde foram parar.
Mario Bourges 01:24 [+]
Segunda-feira, Março 26, 2007
Olga Ferro
Tenho percebido alguma melhora no Baltazar nesses últimos tempos. Ela já olha para os outros sem ficar indiferente; está certo que os modos dele ainda não são os melhores, pois agora ele xinga sem fazer rodeios. Qualquer pessoa o evita, os vizinhos então, têm pavor de encontrar meu velho no elevador, ou em qualquer lugar dentro ou fora do prédio, pois sempre acontece um bate-boca de graça. Posso dizer que os únicos do edifício que não são escorraçados, além de nós, logicamente, são os porteiros, os serventes e um velho que passa parte do dia, e todos os dias, tomando cerveja. Aliás, por esses tempos descobri que também é um militar aposentado. É um dos mais novos moradores do edifício, e junto com este velho veio morar a única filha... Ou neta... Está com cara de ser neta... Enfim; mora com ele... Talvez seja empregada. Ah, como ia dizendo, é uma moça bastante voluptuosa, e para completar a lista de moradores e acompanhantes deste sujeito... Deste bêbado, tem um cão maluco que mora junto. Digo maluco por que às vezes percebo que o animal procura falar algo a eles, mas como não consegue falar, por motivos óbvios, começa a uivar, a latir e a pular seguidamente até que os moradores do andar de baixo façam a reclamação para o síndico.
Bom, eu estava falando sobre meu marido, então, na semana passada senti que uma ansiedade crescia no Baltazar. Era uma coisa latente, não sabia o que lhe causava este distúrbio, mas tive a feliz idéia de fazer um pudim de leite. Feliz idéia porque foi justamente o que lhe acalmou, pelo menos naquele dia, pois nos dias seguintes ficou zanzando de um lado para outro com aquele horrível pé de plástico até que, num determinado momento se cansou. Depois foi para a janela da sala onde ficou analisando não sei o que por horas. Só parou de olhar depois que a diarista passou o pano no vidro. Aí então se sentou, mas pelo jeito não ficou contente, tratou foi de ficar em pé novamente e se pôs a caminhar pela casa. Não obstante, foi para as ruas.
Baltazar Ferro
A vida por vezes nos preá peças homéricas. Por que digo isto? Como não tenho muito que dizer no momento resolvi falar sobre a vida, ou sobre como conduzimos ela ou como somos conduzidos por ela... Sei lá. O fato é que não temos como prever nada nem fazer planos sobre alguma coisa. Nossa! Como estou enrolado desta vez. Bom, depois que fui enterrado, por estar considerado morto, tudo ou pelo menos quase tudo mudou para mim. Antigamente eu saía com prazer. Talvez por que meus amigos estivessem mais dispostos para fazer qualquer coisa também. Então todos saíam, todos bebiam e todos se divertiam.
Pensando sobre esta ausência de divertimento, ou carência de boa companhia, resolvi por em prática uma técnica que há muito não utilizava; sorrir. Certamente que considero isto uma estupidez sem tamanho, pois, onde já se viu sorrir à toa. Para quê? Enfim, que seja. Tal atividade é por demais cansativa, mas, esforço-me como posso para manter esta aparência idiota sem me estressar muito. Por sorte minha o estúpido exercício de sorrir me rendeu frutos num curto espaço de tempo. No meu caso foi providencial, sentia-me, logo nos primeiros minutos que me aventurei pelos corredores do prédio onde moro, assaz desgastado. E por ter conhecido um vizinho, que também é militar aposentado, que pertenceu ao mundo das casernas, e que também leva a vida da maneira que melhor lhe convém, pensei: taí, a diversão está mais próxima do que imaginei, e ainda, posso voltar ao meu normal, sem máscaras ou sorrisos postiços para aliviar o peso do ambiente. Que se dane o peso do ambiente, que se dane o ambiente, que se danem os chatos que implicam comigo. Até uma próxima oportunidade então.
Ah, quanto à diarista; miserável, acabou com meu passa-tempo num piscar de olhos, digo, com um passar de panos. Estava eu distraído e distraindo meus pensamentos cabulosos com um negócio que acontecia no terraço do prédio vizinho. Não sei do que se tratava até então, mas estava divertido, ou pelo menos pensava estar. A coisa se mostrava para mim, pelo menos até o momento que a mulherinha passou a maldita flanela, ou jornal no vidro, como um ser fantástico que pulava e saltitava de um lado para outro com a leveza de uma pluma. Certamente aquilo estava me agradando, aguçando minha mente empoeirada e quase petrificada com tantas mesmices. Mas aí veio aquela desocupada e acabou com meu instante, meu fabuloso instante. Por isso me sentei bravo, por isso saí para procurar alguém, por isso me obriguei a sorrir. Ah, tudo bem, o pudim foi gostoso também; comi tudo.
Mario Bourges 12:58 [+]
Quinta-feira, Março 08, 2007
Estava de saco cheio de tudo, as coisas quase não aconteciam para mim. Depois que voltei de uma viagem feita à praia tudo se anulou em meu cotidiano. Tive vontade de arrancar meu pé de plástico e doá-lo para uma instituição de caridade, ou jogá-lo em alguma vidraça só para ver os cacos voarem longe, e depois me atirar com tudo num forno de lama asfáltica. Quem sabe fazendo parte da malha rodoviária da cidade eu me sentisse mais útil. No entanto tal vontade passou rapidinho, pois essas coisas são tão... Podem ser tão doídas aos nossos corpos. Assim sendo desisti desta besteira. Mas continuava com vontade de fazer alguma coisa, e pensando desta maneira resolvi dar umas voltas pelas calçadas quebradas que compõem o bucólico cenário do bairro onde moro.
Caminhava sozinho, sem a companhia impertinente do Pereirinha, pelos vários lugares que resolvia seguir. Lugares estes que não me diziam nada de tão estranhos que me pareciam, se bem que todos os lugares me soam estranhos, até a rua onde moro pode se mostrar diferente para mim. Basta uma simples falta de atenção. Coisa esta que, aliás, não tenho nem um pouco. Então seguia eu pelos lugares até que encontrasse alguma coisa familiar, se é que existe tal coisa assim, e aí, poder descansar um pouco ou qualquer outra coisa do gênero.
Lá pelas tantas dei de encontro com um ônibus abarrotado de gente fantasiada e gritando coisas e cantando marchinhas de carnaval. Foi nostálgico isso. E assim que o tal ônibus passou por mim todos gritaram lá dentro para parar. Entre gritos e trocas de tapas abriram a porta da condução e falaram para eu entrar. Depois fui descobrir que alguém me identificou, e este alguém era o Odil, que estava na boléia vestido de salva-vidas e com um charuto pendendo para todos os lados da boca enquanto buzinava alucinadamente pelas ruas esburacadas da cidade.
O motivo da gritaria? Era o tradicional Primeiro Grito de Carnaval do Ao Distinto Cavalheiro. Então chegamos no boteco momentos antes da festa começar. Contudo, assim que chegamos a festa começou; chope para lá e chope para cá. Não tardou muito e já chegou a bandinha do maestro Matoso para fazer ferver tudo. Confete e serpentina enfeitavam o bar, as ruas, as calçadas, nossos copos, nossas roupas, bocas, orelhas e olhos. Mas tudo bem, fazia parte da festa. Sem contar com o pessoal que foi paramentado para o festejo. Perucas brilhantes, roupas coloridas e maquilagens estonteantes deram o tom indiscreto ao festejo.
Tudo era alegria; pierrôs, columbinas, arlequins, palhaços, homens vestidos de mulheres e malabaristas compareceram para animar o local, políticos também surgiram, mas após o mar de vaias caíram fora; os jornalistas, volumosos como sempre, eram do mundo inteiro, e estavam lá para cobrir o evento, e ainda, de quebra, o Quarteto Fantástico apareceu por lá. De certo que estes apareceram para fazer firula. Só pode ter sido isso, pois nada fizeram de fantástico. Bom, continuando, a vizinhança que vivia reclamando de barulhos e coisa e tal foram às ruas em peso para comemorar com felicidade a chegada de mais um carnaval. Mas isso não quer dizer que curitibanos gostem desta festa. É tão só apenas o fascínio momentâneo que estas datas exercem sobre nós, nada mais. Porém, não faço a mínima idéia de como somos influenciados por estes festejos. Não sabemos sambar, não sabemos cantar, não sabemos pensar, não sabemos beber, não sabemos votar, e o que é pior, não sabemos sorrir. Então, por que diabos gostamos deste carnaval. Talvez pelo fato de ser organizado pelo Odil.
E para dar continuidade o bloco dos desajustados feito polacos, duros feito paus, e desafinados feito gralhas saíram pelas ruas num enorme trenzinho feito a ALL, ou seja, tombando por todos os lugares e derrubando seus chopes e amendoins e pipocas e sei lá mais o quê. O maestro e sua patota fizeram arrepiar suas cornetas, pistons e outros instrumentos para incentivar as pessoas a pular e a gritar e a urrar. Vi um professor fugindo de uma de suas crias, digo, um aluno, como quem foge de um cachorro louco. Mas não o censuro por isto; o tal ex-aluno estava pra lá de bêbado e não parava de chatear o querido mestre que compõe o quadro de cliente vip do bar com chatices típicas de alunos e ex-alunos bêbados. Sujeito este que me causou nojo até, pois o vi chupando o gargalo de uma garrafa de cerveja por horas. E depois, mais tarde, veio até mim para perguntar sobre o professor. Naturalmente eu, um lorde com um pé de plástico, safei-me educadamente do ex-aluno; dei-lhe um empurrão homérico que o fez cair sentado sobre sua garrafa oca e chupada no gargalo. Como diria meu cunhado: It's so disgusting.
Não quero me aborrecer com estas picuinhas, portanto darei continuidade a este fato tão importante para a história. A nossa história, claro. Lá pelas tantas resolveram fazer um concurso diferente, ver quem era o Rei Momo mais momo e balofo existente na face da Terra. O concurso, devidamente catalogado para os registros do Livro Guinness de recordes, contou com a presença de vários competidores, cada qual de diferente lugar. Na competição não valiam pessoas que tivessem feito a famigerada cirurgia de redução de estômago. Isto era, sem dúvida, o quesito de grande peso, e que realmente desclassificaria o candidato neste concurso. Soube depois que alguns dos competidores passaram em churrascarias para dar um toque em seus pesos.
Olha, só sei dizer que a festa toda foi um charme e uma alegria só. No entanto não pudemos apreciar a competição do Momo mais momo pelo fato de falta de espaço no bar. Para vocês terem uma idéia do ocorrido, só podia entrar um competidor de cada vez no recinto. Primeiro por que os candidatos eram enormes e segundo por que o bar é minúsculo. Mas isso são apenas detalhes, e detalhes que marcaram nossas vidas naquele dia. E a música? Veja; o maestro Matoso mandou todos seus músicos tocarem até que seus lábios inchassem, ou até que seus dedos ficassem tremendo, ou até que suas baquetas quebrassem, ou ainda, até que todos os sacos estourassem... Ã... De certa forma isto foi uma paródia do que aconteceu no tal do Titanic, onde... Ah, deixa pra lá. Só sei dizer que aquilo foi melhor para nós por que tínhamos música a todo instante, e ainda, foi ótimo para embalar os goles de chope que escorregavam goela adentro.
Lá pelas tantas me deu vontade de urinar, de tanto chope que ingeri. Aí que surgiu o problema; como estava tudo tão tumultuado, filas para fazer isso, para fazer aquilo e aquele outro resolvi ir embora. Poderia fazer minhas necessidades na porta de alguma loja, caso quisesse, claro. Mas a situação do lugar estava impraticável, tinha tanta gente na festa, mas tanta gente que havia fila até nas portas das lojas para o ato da micção. Não sobrou um único lugar vago sequer para mijar. Teria de esperar um longo tempo para executar meu intento, e como não tenho paciência para esperar resolvi me retirar da lá. Preferi isso, pois, se fosse esperar por uma mijadinha eu realmente iria dar a tal mijadinha nas calças. Daí não vale. O Odil certamente me entenderia, mesmo porque acredito que ele também tenha feito isso num certo momento. Por que suspeito disto? Simples, teve uma hora que ele simplesmente sumiu de lá, e ninguém sabia da existência dele. Mas tudo bem.
Continuando; a volta para casa não foi nada fácil. O ônibus no qual me encontrava não parava de sacolejar, minha bexiga, cheia até não poder mais, deixou-se aliviar por entre os acentos vagos do lotação. Por sorte, dos passageiros, claro, eu era o único que estava na condução além do motorista. Caso contrário iria ser uma reclamação atrás da outra para meu lado. Dado um momento eu toquei a campainha para descer. Afinal de contas eu teria de descer uma hora. Só não sabia que hora teria que descer. Mas tudo em nossas vidas pode ter um lado interessante, e às vezes, até um lado bom. Por que disso isso? Que sei lá eu, oras. Mas é isso. Deixe-me cuidar das tais calças que acabei urinando no dia da festa. Sei que já devia de tê-la lavada, mas a preguiça é realmente uma coisa. Por conta disto a casa tem fedido feito não sei o quê. Por que a Olga não reclama? Ainda está viajando.
Aqui um dos conhecidos clientes que ao bar do Distinto costuma ir, cantou, riu, gritou, pulou, aloprou até não poder mais e depois, quando não se aguentou de vontade de urinar, foi embora por não ter um lugar adequado para fazer suas necessidades. Tudo bem.
Ps: A insistência dos tolos me comove e comove a todos os outros tolos com suas tolices e insistências. Este blogue, por exemplo, transita tranquilamente entre esses dois mundos. Tanto é que está de volta, na mais comovente e absurda versão, que é a mesma de sempre.
Mario Bourges 00:15 [+]
Terça-feira, Dezembro 19, 2006
Versão: Olga Ferro
Tenho visto muito pouca coisa acontecer por esses dias, muito pouca mesmo. E percebi também que o Baltazar anda sério demais para meu gosto. Está certo que ficou enterrado vivo por alguns dias, e isto deva ter influenciado nas atitudes ou na falta delas para ele. Até fiz um pequeno agrado, preparei-lhe um delicioso pudim... Se bem que faz tanto tempo que não faço deste doce que nem sei se ficou bom. Porém, poderia ter ficado bom ou ruim que tanto fazia para o Baltazar, pois seus pensamentos estão distantes demais para que ele perceba que está em algum lugar conhecido, ou esteja um delicioso pudim à sua espera.
No entanto, como ele vive num mundo que não sei qual é por estes dias não conseguiu se dar conta de que o doce era para ele. E quando ligou um fio ao outro em seu cérebro já era tarde; o cachorro, aquele lambão, deu um jeito rapidinho na iguaria... Não, o gato não come dessas coisas, prefere tomar cervejas. Tanto que está até com cirrose. Mas, continuando; quando se deu conta do sumiço do tal pudim olhou para o cão e chutou-lhe a bunda e deu um suspiro. Nada mais.
Lá pelas tantas ele se levantou de onde estava com cara de tanto faz, calçou os chinelos e foi para fora. Na certa foi ganhar as ruas... Talvez rever os conhecidos, ou entrar em algum botequim... Talvez... Ou quem sabe... Entrar em algum botequim mesmo... Ah! Que vá, pensei. Contudo, aquele pé de plástico que puseram nele não me inspira confiança, pois parece que já vai quebrar pelas calçadas esburacadas ou derreter neste calor infernal que tem feito por esses dias. Enf |